"Deixai toda esperança, ó vós que entrais!" Inferno. A divina Comédia [Dante Alighieri]

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Quote: Amor líquido sobre a fragilidade dos laços humanos [Zygmunt Bauman]



“Será que os habitantes de nosso líquido mundo moderno... preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho é “relacionar-se”. Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas e coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que, como as riquezas de Richard Baxter, que “cairiam sobre os ombros como um manto leve”, possam “ser postos de lado a qualquer momento”? Afinal, que tipo de conselho eles querem de verdade: como estabelecer um relacionamento ou – só por precaução – como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa? Não há uma resposta fácil a essa pergunta, embora ela precise ser respondida e vá continuar sendo feita, à medida que os habitantes do líquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia-a-dia."


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[De “Amor Líquido Sobre a fragilidade dos laços humanos” Zygmunt Bauman]
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O banditismo/messianismo na obra de Natanael Sarmento

Mais uma cortesia recebida da Chiado Editora é sinal de resenha por aqui... O bandido que virou santo foi publicado em 2015, de autoria do escritor potiguar Natanael Sarmento. Nos primeiros anos do século XX, o progresso viria se estabelecer nas terras nordestinas, devido ao vapor da Great Western, a luz elétrica e ao telégrafo. A paisagem das cidades e dos campos, seria modificada. Nesse processo, tais modificações seriam a causa de êxodos rurais por parte de grandes proprietários de terras, indenizados por tais empresas. Diferentemente dos trabalhadores de tais locais, que sem um vintém, haveriam de encarar a expulsão com 'uma mão na frente e outra atrás', por não pertencerem à classe favorecida...

"O êxodo, despejo ou retirada melancólica dos que partiam sozinhos, ou em grupos, as míseras pertenças, as muitas dúvidas. Onde encontrar Terra para semear e colher? Sabiam que deviam partir, não podiam ficar, que deviam buscar outra freguesia. O Progresso chegava com a futura estrada de ferro, eles representavam o atraso, o passado, deviam partir."

Cascavel outrora foi José Presciliano, filho de seu Mestre Francisco, um dos homens que se viram de repente sem terra e sem lar devido à ambição de seu antigo empregador... Ameaçados, humilhados e expulsos, tiveram que enfrentar dificuldades para encontrar um novo recanto, mas por ironia do destino, sofreram os horrores diante da 'Lei'...

Querendo se vingar por tudo que aconteceu desde que deixaram sua terra natal, o garoto comete um crime, e perseguido pela Justiça, acaba encontrando o bando de cangaceiros de Tião Brilhantina. Depois de provar que era corajoso o bastante para não ser morto pelo grupo, acabou caindo nas graças do líder, e a partir daí seguiu por um caminho sem volta, na criminalidade do cangaço, enfrentando os homens da lei, os coronéis e o ódio crescente que habitava dentro de si, por toda injustiça que sofreu em vida...

"Assim a glória desse mundo: alguns manda, muitos obedecem. Abandonar tudo que construiu naqueles sítios, a última ordem do Coronel Abelardo. Ele mesmo determinou o valor da indenização,sem dar cabimento a reclamos."

O Folhetinista é nosso narrador, e através de sua novela traça um perfil da figura bandida/marginal/justiceira do Cangaceiro, bem como denuncia através do campo 'ficcional' os desmandos de uma sociedade corrompida, com uma  política suja, perpetrada por homens poderosos e de influência econômica que visam explorar o mais humilde e trabalhador. 

O bandido que virou santo faz referência a história do cangaço, do coronelismo, exploração da mão de obra rural  pelo latifundiário, ao messianismo presente no povo sertanejo, bem como ao imaginário popular que permeia na literatura de cordel sobre o papel do Homem do Cangaço para os pobres, uma espécie de Robin Hood do nordeste, que através da violência cometida contra os poderosos, há de fazer um pouco de justiça aos menos favorecidos, já que a 'lei' acoberta justamente aqueles que possuem dinheiro e poder. 

"Nos estudos, das formas arcaicas dos movimentos sociais, Eric Hobsbawn consagra a expressão banditismo social. Ela define o papel social do cangaceiro. Lendários fora da lei, não raro, admirados e cantados em prosa e verso. Não são insurgentes políticos, nem perseguidores  religiosos. Eles emergem e se desenvolvem no contexto social ruralista, atrasado e pobre, do capitalismo agrário."

Leitura de nível atemporal, que serve como ponte para entender certas passagens de nossa História ruralista, bem como as lutas pelos direitos proletários, o abuso de autoridades e a fé do povo nordestino, tão incrustada em nossa cultura - simbolizando alento diante das dificuldades diárias...



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Caixa de Correio Março / 2017

E vamos aos recebidos do mês de março! Estava ansiosa para mostrar a vocês o que andei recebendo por aqui... Comprei pouca coisa, ganhei promoção, recebi livros de parceria...

Comprei um livro sobre a banda Iron Maiden, e ainda veio com um cd de brinde, do Guns N' Roses. Além disso, comprei O livro de ouro do Recruta Zero #4 e O livro de ouro do Hagar, o Horrível #3, além das edições 7 e 8 do mangá FullMetal Alchemist... 


Ganhei uma promoção num blog e recebi o livro O castelo mágico da Princesa Melinda + marcadores... A leitura foi rápida e leve... 


Recebi de cortesia para o blog Poesia na Alma o livro O bandido que virou santo, de Natanael Sarmento. Lili ainda me mandou alguns brindes, como calendários e bloquinhos, sendo que um dos calendários é de seu livro Mulheres que não sabem chorar. Ainda mandou dois livros emprestados para que eu devolva quando acabar de ler: Círculo de Xamãs de Olga Kharitidi e A ciranda das mulheres sábias, de Clarissa Pinkola Estés


Em parceria com a Companhia das Letras recebi O rei de Havana, de Pedro Juan Gutiérrez. Já reli e resenhei. Leia sobre ele aqui.


Fiz algumas trocas no Sebo do Dedê em Carpina - PE. Sempre que visito volto com alguns títulos interessantes... Dessa vez trouxe algumas edições de A espada selvagem de Conan, Fora de mim [Martha Medeiros], Antígona, Édipo Rei e Ájax [Sófocles], Carmen e outras novelas [Prosper Mérimée], Felicidade Clandestina [Clarice Lispector], Os três ratos cegos e O cadáver atrás do biombo [Agatha Christie], O que é socialismo [Arnaldo Spindel], O que é teatro [Fernando Peixoto], Cristais [Coleção Caras] e uma HQ antiga da Disney - Os desastrados.


Recebi 3 revistas do meu amigo Antonio [Biblioteca Nacional] e o livro O primo Basílio, de um de meus alunos do sexto ano. 


Por último, eis os livros que ganhei de presente do meu amigo Ireno. Por que ler os clássicos, de Ítalo Calvino; Hipátia de Alexandria, de Maria Dzielska; Assombrações do Recife Velho, de Gilberto Freyre; A rainha descalça e A mão de Fátima, de Ildefonso Falcones e Pintura na Espanha - 1500 a 1700, de Jonathan Brown



Como podem ver, minha Caixa de Correio foi bem sortida... Algumas leituras eu já fiz e resenhei... Outras ainda serão resenhadas por aqui, fiquem de olho nos próximos posts... Conhecem alguns desses livros/quadrinhos? Me falem nos comentários. E quais vocês gostariam de ver sendo abordados no blog?

Beijos e até a próxima caixinha ;)



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O Rei de Havana, mais uma bela ficção de Pedro Juan Gutiérrez



Há alguns anos fiz a leitura de O rei de Havana e recentemente tive o prazer da [re]leitura, graças a parceria com a Editora Companhia das Letras, que lançou uma nova edição pelo Selo Alfaguara. É meio impossível ter algo de Pedro Juan Gutiérrez entre os lançamentos e eu não solicitar... Cubano, nascido em 1950, Pedro Juan já foi vendedor de sorvete, cortador de cana-de-açúcar e locutor de rádio. Mas seu verdadeiro talento é escrever uma boa ficção, das mais cruas e indeléveis, que marca o leitor por anos a fio... Não seria diferente com O rei de Havana...

Retornar à trama de Rei, garoto pobre que cresce em meio a miséria e que desde cedo se depara com uma grande tragédia familiar foi uma experiência única. Os traumas que carrega desde que a morte rondou sua familia, o período que passou no reformatório e sua fuga para ganhar a vida nas ruas sujas de Havana fazem parte da sua essência. Rei se intitula Rei de Havana, e lida com pessoas que - assim como ele - encontram na miséria e sujeira certo refúgio, como se intrinsecamente estar na lama fosse parte de si mesmos...

"O enorme depósito de lixo da cidade, a uns cem metros, exalava um fedor insuportável, nauseabundo. Rei sentiu o cheiro e ficou à vontade. Os odores da miséria: merda e podridão. Sentiu comodidade e proteção à sua volta."

A meta de Rei é sobreviver, dia após dia, da maneira que lhe for possível. Seu caminho se cruza com o de prostitutas que masturbam velhos em troca de alguns pesos, deita com mulheres que tem idade de ser suas avós, algumas outras novas, mas desgastadas pelas agruras da pobreza, fome e vícios. Vaga por prédios condenados a desmoronar, lugares que parecem esgotos de tão imundos e frequentados por tipos marginalizados pela sociedade cubana. 

"não tinha nem café, nem um tostão. Ele desceu a escada de estômago vazio. Tinha pensado que no mercado agrícola de Ánimas podia encontrar alguma coisa para fazer. Odiava trabalhar, mas não queria voltar a revirar o lixo e comer coisas podres cobertas de vermes."

Rum e sexo são o alento de Rei em meio à imundície e à falta de perspectivas. Fugir da polícia, dormir com o estômago roncando de fome, conseguir bicos para garantir bebida e cigarros são as poucas coisas a que Rei se agarra para não desistir da vida de uma vez... Acompanhamos sua trajetória rumo a um desfecho visceral em tons levemente poéticos... A escrita de Gutiérrez tem um quê de encanto, mesclado a uma prosa lancinante, que mais parece um soco no crânio. Nos deixa perturbados, entontecidos... 

Em suma, Gutiérrez é para aqueles leitores que buscam uma leitura profunda, sem rodeios. Que não temem encontrar crueza e melancolia nas tragédias da vida; vida esta regada a sexo beirando a selvageria... 

"Havia muito tempo que não fazia sexo. Tinha comido o cu de alguns veados no reformatório. Mas lá não havia muitas bichas, e eram disputadas a tapa, o que divertia muito as loucas. Ver os machinhos brigando por causa delas. Ele brigou duas vezes, mas depois resolveu que não valia a pena. Aí se masturbava toda noite, mas nada como uma boa chupada de quem sabe, seguida de uma boa boceta úmida e cheirosa, com as respectivas tetas e um rosto lindo de cabelo comprido, e, além disso, um cu opcional, para variar um pouco de buraco."
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12 Meses de Poe [Poema] - Sozinho

"Não fui, na infância, como os outros
e nunca vi como outros viam.
Minhas paixões eu não podia
tirar de fonte igual à deles;
e era outra a origem da tristeza,
e era outro o canto, que acordava
o coração para a alegria.
Tudo o que amei, amei sozinho.
Assim, na minha infância, na alba
da tormentosa vida, ergueu-se,
no bem, no mal, de cada abismo,
a encadear-me, o meu mistério.
Veio dos rios, veio da fonte,
da rubra escarpa da montanha,
do sol, que todo me envolvia
em outonais clarões dourados;
e dos relâmpagos vermelhos
que o céu inteiro incendiavam;
e do trovão, da tempestade,
daquela nuvem que se alterava,
só, no amplo azul do céu puríssimo,
como um demônio, ante meus olhos."


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O teatro de Suassuna em O Santo e a porca


O santo e a porca é a segunda obra de Ariano Suassuna que eu leio. E mais uma vez sua escrita se revela genial. Pertencente ao gênero comédia, foi escrita pelo autor 'paraibucano' em 1957 e tem como temática a avareza, retratada através de um personagem, que esconde o dinheiro que juntou a vida inteira dentro de uma porca.

Com diálogos hilários, Suassuna nos apresenta personagens que utilizam a astúcia próprias e ingenuidade alheias a fim de se darem bem em suas empreitadas. Exemplo disso é Caroba, que numa artimanha bem planejada [talvez nem tanto assim], consegue realizar casamentos, incluindo o seu próprio, sem levantar suspeitas de ninguém, e gerando ao mesmo tempo, algumas hilárias confusões... Tudo com o tom irreverente presente na obra de Ariano.

"Euricão - Que conversa é essa? Você andou remexendo no que é meu?
Caroba - Que interesse eu tinha em remexer nessa troçaria? Só se para ficar com asma, nesse mofo."

A peça é dividida em 3 atos, e pode ser lida em questão de minutos. Mesmo sendo uma peça de teatro - alguns leitores podem não ter o hábito de lê-las - a escrita é fluída e não se mostra cansativa. E certamente vai render boas risadas.  Importante frisar a crítica/reflexão que o autor faz sobre o materialismo, que por vezes se mostra mais importante do que o valor das pessoas. O personagem Eurico ilustra bem essa característica. A porca chega a ter mais importância e cuidados do que a sua filha Margarida

"Euricão - Ai minha porquinha do coração, a luta é grande contra os ladrões. Mas arranjei mais vinte contos para seu buchinho."

Para quem conhece O auto da Compadecida, é impossível não encontrar na figura de Caroba traços do personagem João Grilo. A fim de sobreviver em meio as agruras do nordeste, há que se tornar esperto para driblar as dificuldades e se dar bem na vida. 

"Dodó - A culpa foi sua, era eu falando da filha e o senhor pensando na porca!
Euricão - Ai, a porca! Juntei dinheiro a vida inteira, para a velhice, e agora perco, num dia só, a porca e  a filha!"

Indicado para todos os leitores que buscam uma escrita envolvente, ágil e de diálogos diretos, com um tom de comicidade típica nas obras de Suassuna...
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Assombrações do Recife Velho - Notas históricas, folclóricas e sobrenaturais no passado recifense



Com ares de crônica local, Assombrações do Recife Velho - Algumas notas históricas e  outras tantas folclóricas em torno do sobrenatural no passado recifense foi escrita em 1951 por Gilberto Freyre, que na época era diretor do jornal A província, encarregando seu repórter policial e investigar casas com histórico de assombração. Juntando a esse material investigativo, as estórias contadas pelos moradores mais antigos de bairros sombrios da capital pernambucana, criou-se o material que tenho em mãos, obra riquíssima da sociologia do sobrenatural, que em muito contribuiu para a cultura oral do estado...

A edição prefaciada por Mary del Priore, aclamada historiadora, já mostra a que veio a obra, discorrendo sobre mitos religiosos antigos, conceitos de bem vs mal, estudiosos que outrora abordaram a temática em obras importantes, etc... Os mitos estão impregnados no imaginário pernambucano e remetem a épocas distantes, desde a Idade Média, e que - com o passar dos séculos - foram se adaptando de acordo com a sociedade em que são ambientados. 

Cenários como casarões abandonados, riachos, poços e istmos, ruas calçadas com pedra, iluminadas de maneira precária e árvores frondosas e de copa alta, ganham aspecto fantasmagórico nas lendas e relatos de pessoas diversas, que vão do poeta escravo de tempos longínquos a senhores distintos da sociedade recifense do século XIX/XX, de mucamas a crianças amedrontadas ou homens jovens voltando do trabalho ou de festas tarde da noite...

A religiosidade anda lado a lado do imaginário popular. Segundo o Cristianismo, o diabo é a força de todo o mal. 

"Desde o século XII,a coisa ficava assim equacionada: o diabo era a causa de tudo. Deus poderia ter dado ao anjo decaído o poder de infiltrar-se nos cadáveres. A explicação literalmente canônica subentendia que as assombrações podiam deixar suas sepulturas, instigadas por Satã, que o diabo era capaz de animar em seu próprio receptáculo, ou seja, o cadáver.".¹
Fantômes et tevenants au moyen âge e Au-delà du merveilleux  - Essai sur les mentalités du moyen âge [Claude Lecouteux]
Estudiosos da Antiguidade já relatavam em suas obras fenômenos de origem não-natural, misteriosa e desconhecida como sendo aspectos oriundos da mitologia desses povos. Figuras como a cabra-cabriola, Bicho-Papão, Cabeleira, procissão dos mortos, Lobisomem, almas penadas de sinhás brancas que morriam de doença misteriosa ou febres, negrinhos em encruzilhada ou entidades como Exus são algumas das aparições mais comuns que assombravam as horas mortas de Recife, e se imortalizaram ao longo das décadas a partir da oralidade - passada de geração em geração - a fim de não deixar morrer os costumes da sociedade, mista de culturas negra, indígena e européia...

Os capítulos se dividem caso a caso, em alguns deles percebem-se caracteristicas de 'moral da história' - que seguindo os preceitos cristãos o mal não lhe atingirá. Outro ponto forte nas lendas apresentadas são as botijas, que se fossem arrancadas pelo morador da propriedade poderia fazer o fantasma seguir em paz e enriquecer quem resgatasse o ouro...  Esse tipo de estória era bastante comum até uns anos atrás, em minha infância. Na parte final, os capítulos falam de casarios específicos, mas Freyre tomou cuidado em não revelar exatamente os endereços, situando sem muitos detalhes onde se localizava tal residência... 

A cidade de Recife é um fantasma gigante e coletivo de séculos de idade, permeado de causos e criaturas do além, que atravessam o tempo e mesmo ameaçados pela modernidade, ainda pairam no ar, em conversas de foro íntimo, em noites longas onde ainda se podem ver estrelas no céu... quando as luzes da própria cidade não as ofuscam de quem se arrisca olhar pra cima a procura delas...

"O Recife de hoje, donde a luz elétrica e o progresso mecânico não conseguiram expulsar de todo essas sombras e essas visagens, essas artes negras e essas bruxarias, ainda tem alguma coisa no antigo. Seus grandes sobrados vêm resistindo aos arranha-céus como senhores arruinados da terra a intrusos ricos. Demolidos, às vezes parecem continuar de pé como se tivessem almas fazendo as vezes dos corpos. Almas não só de pessoas mas de casas inteiras parecem vagar pelo Recife. Almas de sobrados. Almas de igrejas. Almas de conventos velhos que não se deixam facilmente amesquinhar em repartições públicas. As almas dos três arcos estupidamente postos abaixo."
O livro ainda conta com dados bibliográficos de Gilberto Freyre, bem como ilustrações ao longo da edição, dando um ar mais soturno a obra... Assombrações do Recife Velho é essencial para se adentrar nas casas velhas, sobrados, cemitérios e igrejas antigos, que contam muito da história pernambucana dos séculos 18 e 19, e dá ao leitor uma ideia da riqueza cultural preservada na sociedade recifense até os dias recentes...

"Quando no silêncio das antigas noites recifenses se ouvia longe, por trás de velhos sobrados, um choro mais triste de menino, era quase certo que a cabra cabriola estava devorando algum malcriado, algum desobediente, algum respondão."

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Contextualização e Problematização nas obras clássicas da Literatura

Por vezes me deparo com resenhas de livros clássicos em que volta e meia o leitor se depara com questões  racistas/homofóbicas/machistas e acabam se incomodando por encontrarem tais conteúdos na leitura... Mas é necessário fazer através de tais leituras, aparentemente descompromissadas, uma análise sobre estes fatores...

Tomando como exemplo algumas obras como As aventuras de Huckleberry Finn, de  Mark Twain, os títulos de Monteiro Lobato, os conceitos de supremacia racial em H. P. Lovecraft, podemos encontrar várias passagens de cunho preconceituoso - seja com indivíduos isolados ou grupos deles - devido a cor, condição social ou misoginia.

Outro ponto curioso que necessito ressaltar é que a cultura do país onde a história se passa e onde o autor[a] viveu podem vir a  influenciar na escrita... Alguns anos atrás vi num texto da faculdade que dizia que as obras refletem muito de quem escreve, de onde se passa a trama e de que país o texto tem origem... Posições políticas, questões sociais, ideologias são retratadas nas entrelinhas, quando não -são o foco principal das obras...

Sim, é revoltante encontrar frases que possam ter cunho racista, afinal estamos em pleno Século XXI e ler isso num clássico realmente é incômodo. E deve chocar, indignar. Esse é o ponto. Na época em que foram escritos, era algo considerado normal. Normal, não falei correto. Normal devido a que? Como tais pessoas eram tratadas na sociedade? Como eram os espaços públicos e privados aos quais eram submetidos? Encontrar o cerne destas questões na literatura pode ser uma analogia interessante para um professor de História trabalhar determinados conceitos em sala de aula, por exemplo. Usando a literatura de maneira eficaz e prazerosa, instigante, indo além do conceito de leituras obrigatórias que fazem adolescentes travarem com a leitura de clássicos...


Algumas pessoas defendem a ideia de modificar tais obras a fim de se ocultar tais trechos, mas acredito que isso seria uma decisão extrema e que iria prejudicar a construção da trama, bem como ignorar o fato de que tais temas precisam ser discutidos... Pense na 'restauração' da imagem abaixo. Ela pode ilustrar bem o que quero dizer... Faz-se necessário usar de bom senso e sabedoria para trabalhar os contextos de maneira que se  faça compreender e argumentar...


'Ah, mas descrições de racismo nos livros podem magoar algum leitor e talz'... Deixar de falar não é o melhor caminho. É preciso problematizar e se você souber usar a obra para desconstruir tais ideias, tanto melhor... 

Ruim seria se tal tipo de leitura não deixasse o leitor desconfortável. Tem que se incomodar mesmo. Frisando: O ponto é esse.




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Fora de Mim, de Martha Medeiros



Martha Medeiros começa um monólogo descrevendo um acidente de avião como uma metáfora para o fim de um relacionamento. Relacionamento esse que iremos adentrar ao longo de suas pouco mais de cem páginas, no título Fora de Mim...

O leitor é uma espécie de ouvinte da personagem, mulher acima dos 40 anos que se vê abandonada pelo grande amor de sua vida, restando apenas para ela as lembranças desse relacionamento, e a dor de sua falta... Dividido em três importantes momentos do fim, conhecemos a história assim que ela se encerra, o período em que a protagonista se entrega a vivência da dor, e por fim a etapa de aceitação em que ela resolve seguir em frente [ou tenta], inclusive adentrando em outro  relacionamento...

Por vezes, as passagens nos soam familiares e cruéis, mas a escrita de Martha tem um quê de poético. É pelo fim que conhecemos o começo de tudo, e de que como se deu a queda desse amor. A narrativa
nos soa como uma manhã de domingo com chuva, melancólica e apática...

"por ora, não existe futuro, não existe passado, não existe o tempo,  eu olho a chuva pela janela e ela existe lá fora, eu não existo aqui dentro."

A história vai se entremeando com vivências futuras da narradora, e que incluem até uma 'amizade' com o 'pivô' da separação. Parece improvável, mas a autora sabe conduzir tal fio como ninguém... A briga maior é da narradora consigo mesma, com as decisões que precisa tomar, com as decisões que precisa deixar... O desfecho é abrupto, seco... mas não nos impede de ficar reticentes...




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