A escrita bárbara e pungente de Michel Laub em O tribunal da Quinta-feira

| 17 março 2017 | |
Revisitar um autor com o qual tivemos um contato inicial maravilhoso é sempre bom, mas não impede de nos deixar com algum anseio de que tal leitura possa não ser ainda melhor que a inaugural... Mas quando se trata de autores como Michel Laub, gaúcho porto-alegrense, esse tipo de receio nem deveria existir...

Assim como em A maçã envenenada, Laub se mostrou cru e genial desde as primeiras linhas, nos presenteando com uma escrita que poucos autores da atualidade conseguem ter... O tribunal da Quinta-feira é ousado; através da figura do narrador José Victor conhecemos o crime pelo qual é julgado. Tudo partindo do ponto em que seus e-mails para o amigo Walter são lidos por sua [ex]esposa Teca. E por ela são divulgados, causando um mal-estar social e profissional, por detalhar em minúcias seu caso com uma colega de trabalho de apenas 20 anos, sendo que o próprio Victor tem bem vividos 43...

A amante Dani acaba sendo atingida pela repercussão, pois a sua intimidade foi exposta nas redes sociais. As conversas entre Victor e Walter são levadas à tona, inclusive o fato deste último ser soropositivo. E em meio ao caos que a vida do narrador se transforma devido ao vazamento de sua intimidade nas redes, há ainda o fantasma do virus da AIDS assombrando sua vida. Ele traça então toda uma trajetória do inicio da epidemia que vitimou os gays desde a década de 1980, inclusive famosos como Cazuza, Sandra Bréa, Claudia MagnoCaio Fernando Abreu e Freddy Mercury, como os amigos e conhecidos que enterrou, os parceiros de Walter que foram vítimas, as transformações sociais e de saúde que os soropositivos viveram ao longo dos anos até os dias atuais. 

Laub faz uma crítica interessante sobre a visão que a sociedade tinha dos gays/travestis desde os primeiros anos da epidemia, a 'morte social' do indivíduo, já morto em vida pelo isolamento que a doença lhes imputava, entre outros fatores sobre relacionamentos em construção e que se extraviam com o passar dos anos... Fala de seu casamento afundando, de suas escapadelas com a garota duas décadas mais nova, sobre a homofobia e violência de maneira nada suave, usando de termos clichês numa espécie de crítica dos mesmos, mas sem abrir mão da maestria ao lidar com uma trama tão intensa e fluída... 

"A vida é tão curta para ser levada a sério. Dá um sorriso, Às vezes. Isto. Assim que eu gosto. Em pouco tempo eu não vou mais estar neste mundo, já devem ter contado para você. Então, deixa eu levar esta lembrança comigo. Um rapaz tão bonito sorrindo. Será a última lembrança que terei. Você é a única visita que eu tive. Prometo lembrar disso na minha cova de indigente, onde vou sorrir também antes de subir no céu e todos serão felizes para sempre."

10 Comentários:

Lilian Farias Says:
20 março, 2017

Essa relação da 'morte social' que entendo também como a invisibilidade não é tão bem tratada quanto deveria, você sabe que a temática muito me interessa e não tenha dúvidas que preciso ler essa obra. Aliás, amo críticas aos clichês!

Beatriz Andrade Says:
20 março, 2017

Achei a proposta da obra totalmente interessante e bem atual, fiquei curiosa para realizar a leitura e ver um pouco mais sobre o que o autor fala. Adorei essa capa.

Ana Paula Medeiros Says:
21 março, 2017

Uma temática bastante atual. Mesmo nos dias atuais a visão da sociedade ainda é distorcida sobre o assunto. Ainda há preconceito, e não só morte social, como morte propriamente dita.
Fiquei bem interessada na leitura.

Book Obsession Resenhas Says:
21 março, 2017

Olá!
Não conheço essa obra e confesso que os temas me atrai bastante pra leitura.
Muitas pessoas vivem esses conflitos e não sabem o que fazer, ou então passam uma vida aceitando o preconceito, ou deixam serem abusadas e negligenciadas.
Com certeza esse é aquele tipo de leitura que devemos fazer devagar pra podermos apreciar e refletir sobre todos os questionamentos gerados.
Anota a dica!
Beijos!

Camila de Moraes.

Grazi Moraes Says:
22 março, 2017

Oie amore,
Interessante esse livro, conheço algumas ex-mulheres assim rsrsrs.
Não conhecia o livro até então, mas já fiquei interessada pra conhecer. Dica anotada!

Beijokas!

Carolinavga Says:
22 março, 2017

Oi Val.
Otima resenha.
A temática é bem forte e interessante. Ainda nao conhecia o autor e anotei a dica.

Beijos
http://aventurandosenoslivros.blogspot.com.br

Larissa Oliveira Says:
24 março, 2017

Oi!
O livro aborda um tema bastante forte e atual em alguns pontos, o que me deixou intrigada e curiosa pra saber como o autor desenrolou o assunto, principalmente pela questão da "morte social" que hoje em dia ainda é algo muito comum.
Beijos!

Livros & Café Says:
25 março, 2017

Oi.

Não conhecia a obra, mas me pareceu ter uma premissa muito boa. Vou precisar conhecer mais sobre o livro, vou adicionar ao Skoob, mas não sei se conseguirei ler em breve. v

Lu - @justificou Says:
25 março, 2017

Oi, Val! Tudo bem?
Eita, que crítica maravilhosa, adorei bastante o tema abordando em toda a trama, parece ser uma leitura bem bacana. Fico impressionado com suas indicações, a cada dia aumenta ainda mais minha lista de livros que pretendo ler! Bom, o assunto dele é bem interessante e o que mais me chamou atenção além dos seus comentários, foi a citação! Espero ler brevemente porque eu adorei conhecer um pouco sobre os personagens e além de tudo sobre os detalhes da homofobia!

Beijos.
Lu - @justificou

carool santos. Says:
25 março, 2017

Olá, tudo bem? Não conhecia o autor, nem a obra, mas fiquei bem interessada. Leituras nacionais são ótimas. Dica anotada!
Beijos,
diariasleituras.blogspot.com

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