Reportagens - Joe Sacco

| 17 fevereiro 2017 | |
A resenha que trago hoje é de uma obra lançada pela Quadrinhos na Cia, de um autor/jornalista que eu já deveria ter falado aqui antes... Uma leitura de apenas 200 páginas, mas que foi sorvida como bebida amarga, devido a temática pesada e cruel de suas imagens... 




O quadrinho traz uma introdução do próprio autor falando a respeito do que trata a obra. A primeira história é sobre o julgamento do Dr. Kovacevik, envolvido no genocídio ocorrido com os bósnios durante o conflito na Guerra da Bósnia. O julgamento se deu em Haia. Joe Sacco também explica sobre as dificuldades que encontrou para fazer a publicação no formato de HQ, devido a alguns entrevistados que não queriam se tornar públicos no caso...

Em Hebron, na Cisjordânia, o jornalista foi cobrir os conflitos entre Israel e Palestina na cidade... Toques de recolher são impostos a boa parte dos palestinos que vivem na área controlada pelos judeus... Um verdadeiro cerco contra os árabes... Em meio a escombros, os habitantes lutam para sobreviver... Moradias de refugiados na faixa de Gaza são derrubadas, por supostamente servirem de base para terroristas... Um dos lemas do local é de que você nunca construa nada muito pomposo, pois vai perder tudo mesmo... e nem faça casas com primeiro andar... são os alvos mais visados pelas tropas como sendo esconderijos dos atacantes... 



Em suas visitas ao Cáucaso, Sacco nos permite conhecer um pouco do que acontece nos campos de refugiados chechenos, que vão desde as dificuldades de se conseguir uma barraca para dormir e acomodar a familia, às condições miseráveis  nos campos, locais abandonados servindo de abrigo, em que famílias alquebradas se sujeitam aos perigos de um vazamento de gás a fim de ter onde se instalar... São indivíduos que apenas tentam viver com o que resta de dignidade, depois de terem perdido bens e parentes, os poucos que possuíam... Algumas das cenas retratadas deixam o leitor com uma forte sensação de desolação e impotência...



Em uma viagem feita ao Iraque, Sacco recria por meio do quadrinho o cotidiano de soldados no país, os maus tratos sofridos no processo de treinamento pelas tropas que são enviadas para a região. Os riscos das bombas nas estradas fazem parte das tarefas e perigos do dia a dia desses soldados, que a qualquer momento podem ser atacados e ainda precisam lidar com esses mecanismos mortais em suas rondas. Movidos pela promessa de 'heroísmo'  muitos se alistam... mas a realidade vai bem além do que eles supunham antes de chegarem ali... 

Por outro lado, temos os iraquianos que se colocam ao lado das tropas do ocidente, as humilhações e gritos vindo de oficiais superiores... Poucos se 'aproveitam' após as três semanas de treinamento intenso, segundo um oficial... Não importa o lado escolhido, em ambos você vai sofrer e possivelmente morrer...

Em outra parte de Reportagens, Joe Sacco apresenta aos leitores os problemas que imigrantes ilegais sofrem em suas tentativas de abandonar países e regiões que vivem em guerra. O principal exemplo tomado são dos africanos que tentam cruzar o mar Mediterrâneo a fim de chegar a Europa, bem como os perigos que se submetem e que na maioria das vezes são mal-sucedidos. Muitos acabam aportando em Malta [terra natal do autor], mas acabam presos, deportados... há ainda os riscos do deserto, a fome, atravessadores que abandonam os fugitivos em situações calamitosas...

Em tempos de intolerância com imigrantes fugindo em vários pontos do mundo, e figuras políticas autoritárias que destilam ódio, inclusive aqui no Brasil - não é de se espantar que na Ilha de Malta também haja figuras que se adequam a esse papel de extremista. Na figura de Norman Lowell, que defende uma Europa branca falando latim, Hitler é seu herói e os negros são escória, os eritreus não tem chances quando são pegos pela polícia de fronteira. 



A intolerância sofrida por eles pode ser comparada às minorias religiosas de nosso país que lutam por seus direitos contra uma bancada evangélica fundamentalista, ou aos homossexuais que são espancados por ignorantes em redes sociais ou becos e metrôs de cidades como São Paulo, ou como imigrantes senegaleses que são queimados vivos em estados onde ocorre uma forte propaganda racista...[friso que não são todos os habitantes que possuem tal pensamento, mas há que se concordar que no sul do Brasil existe uma parcela significativa de pessoas que destilam tal discriminação e violência], entre outras infâmias que andam acontecendo em nosso país, devido a uma onda crescente de intolerância e propagação de ódio, inflamada em discursos por parte de nazifascistas disfarçados de cidadãos de bem.

Norman Lowell seria o Donald Trump ou o Bolsonaro maltês, que persegue e incute na população maltesa o ódio mal-disfarçado pelos imigrantes africanos, que fogem da guerra em seu continente e que chegam em Malta por infeliz acaso do destino... Tratados como animais, são explorados pelos comerciantes, que não pagam valores justos por seus serviços, e ainda precisam suar muito para conseguir uma refeição ao dia... São inúmeras as dificuldades para se sustentar, vivendo de bicos e esperando o governo dar uma solução digna para eles...



Encerrando a obra, Joe Sacco relata os dias que passou em Kushinagar, na Índia, onde a pobreza é tanta que os dalits escavam buracos de ratos para lhes roubar os grãos, para ter com o que se alimentar...Os musahars, casta considerada ainda mais inferior que os dalit, sofrem com a fome e a corrupção dos líderes de aldeia, que tiram vantagem dos cartões de racionamento distribuídos aos pobres para favorecer a si mesmos... O jornalista não se aprofunda muito nas entrevistas e depoimentos devido a possíveis represálias que pode vir a sofrer por parte destes líderes, etambém seus entrevistados...

Reportagens não é o primeiro quadrinho de Joe Sacco que leio. Mas é o primeiro que trago ao blog, graças a parceria com a Editora Companhia das Letras, que publicou ano passado essa obra crua e sem rodeios, que serve como um relato de guerras e nos leva a refletir em vários aspectos, e acima de tudo - ainda ser gratos por não estarmos [ainda] nas mesmas condições que os indivíduos nela retratados. Que sirva como uma espécie de lição sobre como lidamos com minorias, refugiados, com a pobreza que nos cerca e que nos desperte empatia,  já que não nos resta muito além disso que possa ajudar de fato essas populações em estado de calamidade... Se sentir mal ao ler Reportagens é até um bom sinal: mostra que ainda não perdemos a dignidade que cabe aos seres humanos... 

22 Comentários:

Priscila Soares Says:
19 fevereiro, 2017

Olá! Nossa, que livro intenso! Achei muito interessante o autor ter decidido publicar seus relatos em forma de quadrinhos. Estou acostumada com HQs sempre sendo de ficção e muitas vezes de comédia, mas nesse caso ele está expondo realidades cruéis e pesadas de diversos lugares do mundo. Realmente muito importante para nos fazer refletir sobre tudo que acontece ao nosso redor e que preferimos ignorar.

Faby Souza Says:
19 fevereiro, 2017

Olá Val, tudo bem?
Mais uma resenha incrivel do seu blog. Parabéns!
Eu não conhecia a obra ou o autor, mas amei a ideia. O livro parece intenso e muito interessante. O quadrinho é uma ótima forma de chamar a atenção. É uma obra sem duvida muito boa vou tentar adquirir sim, parece ser uma leitura bastante instrutiva. beijos

Gleyse Vieira Says:
19 fevereiro, 2017

Oi Val, achei bem interessante e diferente o autor ter sido ousado com essa obra ao trazê-la em formato de quadrinhos. Imagino como deve ter sido trabalhoso retratar histórias tão fortes. Adorei conhecer o trabalho dele. Bjs

Crislane Barbosa Says:
19 fevereiro, 2017

Oi, Maria!
Que quadrinho pesado! Com certeza é uma leitura "tapa na cara".
Relatar tudo isso em forma de quadrinho deve deixar tudo mais pesado, pois as cenas ganham vida, ficam eternizadas no papel e na mente do leitor.
O único hq em forma de não-ficção foi "Retalhos", que também é da Cia das Letras.
Vou sim dar uma conferida nesse hq quando puder tê-lo em mão.
Obrigada pela dica!
Beijão!
http://www.lagarota.com.br/
http://www.asmeninasqueleemlivros.com/

Fabi Lange Brandes Says:
20 fevereiro, 2017

Nossa.... nunca vi quadrinhos tão pesados.... os desenhos demonstram bem todas essas emoções que vc descreveu e tbm o texto me parece maravilhoso. Com certeza, a fica está anotada, pois desconhecia essa obra. Obrigada! ❤

Entre Livros e Amores Says:
20 fevereiro, 2017

Olá ♥
Bom não tinha conhecimento do quadrinho, até por que não é o tipo de leitura que eu tenha costume de fazer. Mas tenho que confessar que á algo diferente, algo que é literalmente o que eu li em um comentário acima " Tapa na cara" de muitas pessoas. É um temática até pesada, mas que precisamos ler e ver. Achei bacana por em quadrinho . Dica anotada. Beijos

Aline Belloni Says:
20 fevereiro, 2017

Oi,Mari!
Eu fiquei surpresa com o conteúdo dos quadrinhos, porque não é o tipo de coisa que se espera, sabe? Mas ao mesmo tempo, é uma realidade, então eu gostaria sim, deter essa obra em mãos para saber mais sobre os acontecimentos vividos pelo repórter.

Livros & Tal Says:
20 fevereiro, 2017

Olá, tudo bem?

O mais interessante dessa obra, que achei, pelo que você apresentou, é o fato de se tratar de histórias reas. Histórias pesadas e que devem nos servir de reflexão.

Beijo.
Ana.

Ketellyn Livros Series Filmes e Mais Says:
20 fevereiro, 2017

Oi, adorei a resenha, mas infelizmente não me chamou a atenção, principalmente por ser uma hq, eles raramente me chamam a atenção, mesmo assim obrigado pela dica

Livros em Retalhos Says:
21 fevereiro, 2017

Nossa que interessante esse livro, primeiro pelo fato de serem reportagens que mostram fatos muito cruéis (infelizmente verdadeiros), e outro por ser um HQ o que torna as histórias ainda mais intensas pois são ilustradas, adorei a resenha e fiquei muito curiosa para conhecer este livro. Bjs

www.livrosemretalhos.com.br

Liziane Goulart Says:
21 fevereiro, 2017

Oi!!
Embora o livro traga histórias com temas bem pesados, eu gostei muito, adoro leituras neste estilo e nunca li uma assim em quadrinhos.
Gostei muito da dica e já está anotada para ver se consigo ler.
Beijão!

Ju Says:
21 fevereiro, 2017

Essa temática pesada e cruel definitivamente não é pra mim.
Não gosto desse tipo de leitura porque parece que absorvo tudo e fico mal por um tempo.
Vou te dizer que fico completamente chocada com o que seres humanos fazem com outros seres humanos, respeito é algo muito em falta nesse mundo.

Paac Rodrigues Says:
21 fevereiro, 2017

Cara desde que vi essa foto tua to curiosa com esse quadrinho, sua resenha destruidora me convenceu ainda mais se é que era possível kk. A história é bem pesada mas assim como todos os livros que li com histórias assim ele deixa a gente com uma reflexão de vida.

Carla Vieira Says:
22 fevereiro, 2017

Nunca tive o costume de ler quadrinhos, mas achei bem interessante haha
Beijos

Debyh Says:
22 fevereiro, 2017

Olá,
Gosto de quadrinhos. Ainda mais com um tema tão pesado. Nunca li nada do Joe, mas agora depois da sua resenha me interessei bastante.

http://euinsisto.com.br

Manuh Says:
22 fevereiro, 2017

Olá, nunca havia visto esse quadrinho. Também não sou muito de ler quadrinhos mas achei bem interessante a sua resenha, principalmente por se tratar de um tema forte, pois acho que se as pessoas tivessem conhecimentos desses temas, o mundo seria bem diferente, pois são essas histórias que nos fazem refletir sobre a vida, gostei bastante de sua resenha assim como do seu blog também, achei muito legal, dica anotada, beijos.

carool santos. Says:
22 fevereiro, 2017

Olá, tudo bem? Sou fã de HQ's porém quando se tratam de temas pesados, confesso que fujo um pouco. Não é uma coisa que nesse momento eu leria, por isso dica para um futuro!
Beijos,
diariasleituras.blogspot.com

No Conforto dos Livros Says:
22 fevereiro, 2017

Olá!! :)

Eu não conhecia este livro nem o autor que já leste antes... Bem, eu confesso que não costumo nada ler Bandas Desenhadas...

Mas ainda bem que gostaste! E este tema não me arada muito. Contudo, acho otimo eu não hajam rodeios, e que faça refletir!! :)

Boas leituras!! ;)
no-conforto-dos-livros.webnode.com

Licavargas Says:
24 fevereiro, 2017

UAU... Super interessante a ideia toda do HQ. E confesso que se fosse um livro talvez não chamasse tanto a minha atenção. Até porque, apesar de sério e de ser um tema tratado de maneira crua, querendo ou não o fato de ser em quadrinhos acaba trazendo uma leveza (não no sentido de ser leve, mas no sentido de ser mais fácil de fazer a leitura fluir com um assunto tão pesado).
Dica mais do que anotada. espero ter a oportunidade de ler logo.
Beijinhos,
Lica

Fernanda Says:
28 fevereiro, 2017

Oi!
Achei interessante o que o livro aborda, porém é muito pesado, principalmente as imagens dos quadrinhos, não é uma coisa que leria.
Mas gostei bastante da resenha :)

Bjs!

Livros & Tal Says:
28 fevereiro, 2017

Oie!
Nossa eu nao conhecia esse quadrinho e nem essa parte da CIA das letras que publica esses livros.
Achei a história mega interessante, informativa e importante!
Infelizmente eu não tenho o costume de ler esse tipo de obra, mas tenho certeza que ela é um "prato completo"

beijos
Livros & Tal

Priscila Alexandre Says:
28 fevereiro, 2017

Quando vi esse quadrinho, não sabia que era tão profundo em suas imagens e reflexões.

Lendo sobre a parte em que você fala sobre os africanos e todos os perigos que enfrentam para chegar até a Europa não significa nada em relação ao que passam em suas cidades natais. Mesmo a situação que encontram em Malta não é nada em comparação ao que já foi passado... É triste pensar isso.

Ótimo post, ótima indicação!

Abraços!
www.asmeninasqueleemlivros.com

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