A obra incômoda e honesta de Burroughs - Queer

| 15 fevereiro 2017 | |
"A sodomia é tão antiga quanto a espécie humana."


Escrito em 1952, Queer só pôde ser publicado na década de 1980, devido à temática homossexual que o livro aborda. Escrito por um dos integrantes da tríade beat, William S. Burroughs, o romance fala sobre William Lee e sua paixão mal correspondida por Eugene Allerton. Juntos, eles viajam para a América latina em busca da ayahuasca, substância que - supostamente - pode trazer efeitos como controle do cérebro e de pensamentos... 

William Lee é o alter ego do autor, e além de lidar com sua abstinência com as drogas, o protagonista de Junky e Almoço nu ainda precisa lidar com a indiferença de Eugene, e isso o magoa bastante... O protagonista carrega a trama com seus monólogos doloridos numa escrita visceral já conhecida pelos fãs de Burroughs.

“O desejo fazia doer sua respiração…”

O amor não correspondido é o plano principal da trama descrita em Queer. As drogas, viagens e afins são complementos que tornam a leitura mais pungente, marginal e crua. O amor descrito aqui é obsessivo, sofrido-dolorido. A base de choro, olheiras e gozo... A indiferença de Eugene atormenta Lee, que além disso precisa se abster de drogas, usando o álcool como paliativo... Mas Lee não se dá conta que a pior abstinência pela qual passa é a da atenção de seu parceiro... 

"Levantou e saiu. Caminhava devagar. Várias vezes parou, apoiando-se em alguma árvore e olhando para o chão, como se o estômago doesse. Já no apartamento, tirou o casaco e o sapato e sentou na cama. A garganta começou a doer, os olhos a lacrimejar e ele desabou atravessado na cama, soluçando convulsivamente. Abraçou os joelhos e cobriu o rosto com as mãos, os punhos cerrados com força. Tinha quase amanhecido quando Lee virou de barriga pra cima e se estendeu na cama. OS soluços pararam e seu rosto relaxou à primeira luz da manhã."

Uma característica interessante que dá mais 'charme' à trama é sua ambientação na América Latina. O cenário exótico, que remete a poeira, aventura e calor são elementos atrativos na busca pelo ardor e pela droga ayahuasca... 

A tríade escrita por Burroughs tem em Queer a ponte que liga as outras duas obras, completando sua fase inicial na literatura experimental. Enquanto em Junky vemos uma relação amorosa de William Lee com a droga, em Queer há um processo de separação [ou tentativa de] com a mesma, além do romance com Eugene...

Publicado pela primeira vez em novembro de 1985, Queer é um dos mais novos lançamentos da Editora Companhia das Letras, que já trouxe Almoço Nu em 2016 e Junky pelo selo Má Companhia em 2013. Com tradução de Christian Schwartz, é uma  excelente obra para se ter na estante. Queer é incômodo, genial e tem um quê de autobiográfico. Pura essência beat...

13 Comentários:

Isabela Castro Says:
16 fevereiro, 2017

Olá! Esse não é o tipo de leitura que me agrada. Certamente ficaria irritada com o personagem tão vida louca e o relacionamento danoso entre ele e Eugene. Então passarei a dica dessa vez.
Beijos

Rayanni kellsin Says:
17 fevereiro, 2017

Olá, tudo bem?
Gostei bastante da sua opinião para com a obra, mas não é o tipo de gênero a qual estou habituada.
Então vou passar a dica.
Um beijo.

Michele Lopez Says:
17 fevereiro, 2017

Olá,
Desconhecia o autor e sua obra.
Saber que o personagem é alter ego do autor me deixa bem intrigada, principalmente por causa dos temas que são abordados.
Anotei a dica para ver se gosto dessa escrita visceral e também conferir esses complementos relacionados ao amor não correspondido.

LEITURA DESCONTROLADA

Maria Luíza Lelis Says:
17 fevereiro, 2017

Oi, tudo bem?
Não conhecia o livro e nem o autor. Me surpreendi de saber que foi escrito há tanto tempo e demorou tanto para ser publicado. Achei legal o livro ter um pouco de autobiografia e a premissa parece ser interessante.
No entanto, confesso que não é o tipo de livro que me atrai, pelo menos atualmente. Não descarto ler algum dia, mas, por enquanto, vou passar a dica.
De qualquer forma, sua resenha ficou ótima.
Beijos!

Thamires Vasconcelos Says:
17 fevereiro, 2017

Oiii
Que capa mais amorzinho. Amei!! Mas infelizmente, essa não é o tipo de leitura que me agrada... acho que vou passar a dica.
Sucesso! Bjoo

Livros em Retalhos Says:
18 fevereiro, 2017

Esse livro parece ser uma verdadeira viagem no eu de Willian, apesar de não seor muito o tipo de livro que eu gosto, fiquei bastante curiosa. Adorei a resenha...Bjs

www.livrosemretalhos.com.br

Ju Says:
19 fevereiro, 2017

Não curto livros incômodos nem com esse quê de autobiográfico, e o enredo não me atraiu em nada. Isso de escrita visceral, complementos que tornam a leitura marginal crua, não são elementos que eu gosto de encontrar em um livro.

Fabrica dos Convites Says:
19 fevereiro, 2017

Há uma ordem correta para ler estes livros, ou consigo entender o enredo sem depender disso? Deve ser complicado tentar se livras das drogas ao mesmo tempo que sofre com a falta de amor do seu parceiro.
Bjs

Andréa Fundo Falso Says:
20 fevereiro, 2017

Olá!

Super me interessei! Vou querer ler esse!
Adorei a trama, e a intensidade que o "romance" parece ter. Vi que elogiou a tradução, então não vou deixar passar mesmo!

Bjus

Catharina M. Says:
21 fevereiro, 2017

Oie
muito legal a leitura parece ser, bem instigante e gosto de dar uma variada, então a dica está anotada, bela dica

beijos
http://realityofbooks.blogspot.com.br/

Debyh Says:
22 fevereiro, 2017

Olá,
Achei interessante se passar na América Latina, fica diferente do que estamos acostumados a ler neste tipo de livro. Nunca li nada do autor, mas me chamou muito atenção este livro.

http://euinsisto.com.br

Livros & Café Says:
22 fevereiro, 2017

Oi.

Não conhecia este livro. Mas sendo da Companhia das Letras tenho certeza que é muito bom. Fiquei interessada no enredo e vou dar uma chance ao livro. Vou anotar o nome ou adicionar ao Skoob para ler depois.

Fernanda Says:
23 fevereiro, 2017

Oi!
Não conhecia o livro, sua resenha me deixou curiosa :) Vou procurar mais sobre.

Bjs!

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