A amarga história de um niilista russo em Pais e Filhos, de Ivan Turgueniev...

| 02 dezembro 2016 | |

Eugênio Bazárov é um intelectual materialista que nega a arte, o amor, a religião e convenções sociais. Se afirma niilista, um rebelde que não aceita nada que não seja digno de exame. Mas convicções, por mais praticadas que sejam na vida, um dia podem cair por terra quando surge uma mulher prestes a mudar isso... Esse amor que desarma o protagonista, pode conduzi-lo à morte...

Pais e Filhos é um clássico da literatura russa, escrito por Ivan Turguêniev em 1861, num período em que o país tinha recentemente emancipado seus servos, onde haviam agitações de cunho revolucionário sendo conduzidas por mentes jovens e distintas da geração anterior, de seus pais e avós. Esse choque de pensamentos permeia todo o romance de Turguêniev, simbolicamente representados nas figuras de Bazárov e seus pais e de seu amigo Arcádio Nikoláievitch com sua familia, composta pelo pai, tio, madrasta e irmão ainda bebê...

Arcádio e Bazárov representam a juventude de ideias amplas, em contraste com o conservadorismo e tradicionalismo de seus entes mais velhos, que não enxergam com bons olhos essa nova geração que se nega a seguir em frente com os antigos valores e costumes sociais... Tal antagonismo funciona como uma espécie de conflito atemporal entre a velha e a nova geração... Bazárov e Arcádio compartilham de pensamentos semelhantes mas logo se vêem enredados por nutrir amor pela mesma mulher... A negação do amor, tão influenciada pelo pensamento niilista de Bazárov parece não ter mais sentido quando ele se descobre apaixonado... Seus princípios passam a ser questionados por ele mesmo...

O texto é fluído e parte para um desfecho melancólico e triste... Acometido por uma doença, Bazárov prevê seu fim... A obra não trata apenas de um conflito entre gerações, vai bem além disso... A Rússia passava por um momento de luta pela liberdade e fim da servidão. O protagonista era um rebelde de seu tempo, que bania as instituições e não se inclinava fácil à convenções e burocracias...

O termo niilismo se popularizou a partir desse momento, sendo o autor responsabilizado na época por ter influenciado movimentos sociais ocorridos após a publicação de Pais e Filhos, embora que tais movimentos não tivessem muita relação com a ideologia caracterizada no livro... 

Interessante frisar também que Dostoiévski faz alusão a Turguêniev em seus livros Crime e Castigo e o transformou em personagem na obra Os irmãos Karamázov. O niilismo desponta também na Alemanha, na obra e pensamento de Friedrich Nietzsche, que se intitulou 'o último niilista'. 

As figuras femininas se mostram importantes no decorrer da história, como Katia, Fienitchka e a viúva Odintsova. Essa última representando as mulheres imponentes, livre das amarras aristocráticas sem perder a elegância... A escrita do autor é detalhista sem cair na monotonia, tal realismo faz com que o leitor adentre a história como se tivesse mergulhado na Rússia do século XIX... Em suma, Pais e Filhos é um romance forte, bem construído e nos presenteia com personagens bem caracterizados, que simbolizam toda uma época de mudanças na sociedade russa...



16 Comentários:

Faby Souza Says:
06 dezembro, 2016

Olá Valéria, tudo bem?
O que mais gosto no seu blog é o estilo de leituras que eu geralmente não curto, ou seja, por puro preconceito literário ( se posso chamar assim) acabo perdendo leituras maravilhosas como essa, por isso comecei a seguir o seu blog, para ficar por dentro dessas dicas incríveis. Amei a sua dica de hoje, já está na minha lista de próximas leituras. beijos

Ingrid Faria Says:
06 dezembro, 2016

amo receber suas sugestões de clássicos da literatura russa. Preciso muito ler todos eles. Um dia eu lerei e volto aqui pra falar sobre todos! haha
Beijos
Já disse que sou fã do seu blog?

Rosana Gutierrez - Livrólogos Says:
06 dezembro, 2016

Olá
Gosto das suas resenhas que fogem da mesmice e são sempre bem escritas.
Qdo o autor é bom e nos transporta p dentro da história é fantástico. Deixa a experiência de leitura ainda melhor.
Bj

Rob Camilotti Says:
07 dezembro, 2016

Ótima resenha, clara e informativa.

Minha ignorância me leva a confessar que nunca li nada desse autor e que sou um escritor literariamente mais pobre por causa disso.

Que me conforta então? Sempre há tempo quando ainda se há vida.

Bora ler, rs!

Roberto Camilotti: blog de literatura.

Thayenne Carter Says:
07 dezembro, 2016

Olá,

Esse livro não faz muito meu gênero literário, mas às vezes sair da zona de conforto pode ser bom, e gostei bastante de algumas coisas que forma destacados em sua resenha. Acredito que eu nunca tenha lido nada russo, e acho que seria uma ótima ideia começar por esse :) valeu pela dica!

Beijos,
entreoculoselivros.blogspot.com.br

Yvens Castro Says:
08 dezembro, 2016

Olá minha amiga, tudo bem?

Adorei a sua resenha, como sempre um espetáculo. Eu confesso que não conhecia o autor e a obra, é a primeira vez que vejo, parece ser de fato muito boa, deve nos tirar da zona de conforto. Pela sua resenha deu para perceber que gostou da leitura. Vou anotar na minha lista de possíveis leituras.
Bjuss

Ana Caroline Says:
08 dezembro, 2016

Olá, Mária.
Creio que esse livro nos proporciona bons conhecimentos a respeito desta época, adoro livros que remetem a uma época passada e nos deixa ensinamento a respeito.
Fico feliz que tenha gostado do livro, pela resenha senti que é um livro bastante complicado de se conhecer, mas eu arriscaria lê-lo. Ótima indicação!

Art Of Life and Books Says:
08 dezembro, 2016

Adorei o enredo, parece ser um belo livro, além disso, adoro suas resenhas porque são completas.♥

Dayane Reis Says:
09 dezembro, 2016

Olá =) Confesso que não conhecia a obra. Uma coisa que adoro nas suas resenhas é que ela sempre me apresenta livros mais clássicos ou de autores que eu não conhecia, costuma sair do "todo mundo ta lendo esse livro". Apesar de seu gosto pela literatura ser diferente do meu eu gosto de acompanha suas resenhas. O fato de saber que a escrita da autora é detalhista e não cai monotonia me despertou o interesse de conhecer mais os livros dela. Beijos'

carool santos. Says:
11 dezembro, 2016

Olá, tudo bem? Bem nossos gostos como pude perceber são bem diferentes e opostos, porém sempre gosto de ler suas resenhas porque sempre encontro um acho aqui e ali que eu possa gostar. Pais e Filhos foi uma dessas! Adorei o possível fato de empoderamento feminino! Ótima resenha.
Beijos,
diariasleituras.blogspot.com

Amanda Mello Says:
12 dezembro, 2016

Eu ainda não conhecia esse liro, mas pela sua resenha percebo que estava mais que na hora de conhecer. Parece ser um livro brilhante que eu quero muito ter a oportunidade de ler um dia.

Gabriela Cerqueira Says:
12 dezembro, 2016

Olá, ainda nao conhecia o livro, preciso começar a ler clássicos, só os leios quando é obrigatoriedade para alguma disciplina da faculdade,o livro parece ser bastante sério e com certeza um formador de opniões

Angélica Lima Says:
13 dezembro, 2016

Oi, tudo bem?
Não conhecia o livro, foge bastante da minha zona de conforto, mas gostei de saber que as figuras femininas também são imopstantes no decorrer da história!
js

Bruno Marukesu Says:
14 dezembro, 2016

Oi, Maria ^^
Tenho que confessar que o enredo não me chamou a atenção mesmo sendo um clássico russo. Tenho sérios problemas com enredos que tem forte cunho ideológico/filosófico, sabe. Só de ver Nietzsche citado me deu calafrios porque não consegui terminar a obra dele e achei muito estranho o enredo. Sei que esses autores tem grande importância na mudança de pensamento de algumas sociedades, mas para mim não vejo como leitura para relaxar, me parece mais um livro didático. Mas fiquei com aquela ponta de curiosidade para saber se de fato Arcádio e Bazárov trouxeram alguma mudança para o seu meio social.
Parabéns pela resenha e por enfrentar de peito aberto essa leitura, Maria. ^^
Bjs

Suelen Fernandes Says:
30 dezembro, 2016

Olá!
Eu já tinha ouvido falar do autor, mas não li nenhuma obra dele. Achei a história bem interessante e ao mesmo tempo meio confusa e não sei se a linguagem é mais rebuscada. Confesso que não me senti atraída pela história.
Sua resenha está ótima, mas no momento não leria o livro.
Beijinhos!

Michelle Ladislau - As Leituras da Mila Says:
30 dezembro, 2016

Olá.
Tudo bom?
Pela sua resenha dá pra ver como a obra é boa, mas infelizmente não faz meu tipo de leitura, eu fujo um pouco de clássicos, mas quem sabe um dia me dê essa oportunidade.
Beijos

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