As agruras de um homem encarcerado... João Miguel, de Rachel de Queiroz...

| 10 novembro 2016 | |
Tive contato com a escrita de Rachel de Queiroz uns anos atrás, quando me deleitei com a leitura de O Quinze, um de seus títulos mais famosos... Recentemente ganhei de um amigo o livro João Miguel, e resolvi me entregar a leitura sem saber muito da história... Mas se tratando de Rachel, já previ uma narrativa intensa e fluida...

João Miguel se envolve numa briga e o resultado dela é a prisão, depois de ter matado seu oponente... Houve um crime num ambiente ruralista e o drama surge daí. João precisa aprender a lidar bem com seu tempo na cadeia, a preencher as horas ociosas, e vendo seu relacionamento com Santa ir minguando com o decorrer dos meses... 

A autora usa de elementos como traição, solidão, e toda uma ambientação no nordeste cearense para criar um enredo simples e ao mesmo tempo envolvente... Elementos como religiosidade, cultura sertaneja, fatalidade e labuta do homem nordestino se mesclam entre jogos de bicho, cachaça na cela da cadeia - típica de cidade de interior - e orfandade, onde a miséria permeia a vida do protagonista e de outros personagens, que contribuem na trama com suas características estereotipadas... 

Temos a mocinha virginal filha do coronel, preso por assassinato. O delegado que se impõe mas na verdade sente pena de seus presos. O soldado sossegado que se envolve com a mulher de João Miguel, a mulher bêbada e sofrida que serve comida na cadeia, e adora um mexerico. A bebida em si carrega a relevância de ser um personagem. É graças a ela que João mata no início do livro, é ela que o alivia quando o desespero da solidão e da liberdade privada lhe atormentam, é a cachaça que fez parte de sua vida desde a mais tenra infância, quando se viu sem a mãe -  morta desde muito cedo - e é ela que em determinado momento, aviva seus sentimentos de vingança para com Santa e o soldado Salu. Mas a figura de Angélica e de outro preso o demovem de atentar contra a vida de Salu.


O protagonista é um homem comum, sofrido e que por uma decisão tomada pelo calor da bebida, acaba por transformar sua vida por completo, a partir dali. Durante os primeiros dias na cadeia, ele remói suas culpas e angústias. Durante todo o livro é quase palpável o sofrimento de Miguel a fim de livrar-se da sensação de que é um assassino, quando antes era apenas um homem de bem, mas que atribuiu a bebida todo seu infortúnio. É possível sentir pena pelo seu destino, e você acaba torcendo pra que ele encontre em sua penitência um final feliz...

Obra escrita com a maestria pertencente a um dos grandes nomes da literatura brasileira, João Miguel é pertencente ao movimento Modernista de 1930. É um livro que aponta as agruras do nordestino e a aridez do ambiente compondo um quadro de crítica social com linguagem tipicamente brasileira. Linguagem essa que tem o papel metafórico de passar ao leitor a ressequidão do ambiente sertanejo. Sem sombra de dúvidas, recomendo.


5 Comentários:

Marcia Lopes Says:
12 novembro, 2016

Olá!
Eu li o Quinze na época da escola ainda, lembro que gostei.
Esse não conhecia, bom saber que uma bia leitura.
Bjs

Fabrica dos Convites Says:
12 novembro, 2016

Oi Maria, sem dúvida que um livro da Rachel é sempre sinônimo de boa leitura. Pelo visto o enredo continua tão atual como quando foi lançado
Bjs

Gleyse Vieira Says:
14 novembro, 2016

Oi Val, eu também li O Quinze, mas faz tento tempo que nem me lembro do enredo. Se não me falha a memória no acervo do meu pai tem essa mesma edição que você resenhou e pelo que você conta, a história é bem envolvente e para nós, nordestinos é sempre bom ler algo com esse cenário, mesmo que por muita vezes a história não seja das mais positivas, enfim. Gostei da resenha e quem sabe um dia eu leia esse livro. Bjs

Gislaine Oliveira Says:
14 novembro, 2016

Oiii, Maria. Tudo bem?
Eu nunca li nada da autora, acredita? Mas pretendo mudar isso em breve :)
Acho que vou colocar ela como meta de leitura para o ano que vem, porque só assim para conseguir atropelar as outras leituras hahahahhaha
Esse eu ainda não conhecia, mas gostei de conhecer. Bem que eu precisava de um amigo desses para me dar livros hahahah
Beijooos
http://profissao-escritor.blogspot.com.br/

Morgana Brunner Says:
14 novembro, 2016

Ainda não tive oportunidade para ler nenhum livro da Rachel, mas a cada resenha que vejo pelos blogs elogiando e gostando, até mesmo indicando me deixam bastante interessada em querer pesquisar a mais, este ano minha meta de leitura é os restos de parceria, tentarei ano que vem.
Abraços

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