História e Imagem - Analisando temas sociais nas histórias em quadrinhos...

| 17 outubro 2016 | |


Uma HQ ou livro podem revelar muito de sua época. Neste artigo acadêmico realizado para a disciplina de História e Imagem, o texto fala sobre a abordagem didática em determinadas histórias, e que um professor pode utilizar tais obras a fim de ampliar discussões em sala de aula através desse recurso... 

Na HQ O livro de ouro do Hagar, o horrível, uma aclamada tirinha que há anos está no mercado e que narra o cotidiano de um bárbaro e sua família, com todos os estereótipos que o termo 'bárbaro' simboliza, pode-se identificar elementos que abordam a questão da xenofobia entre as tiras, como no trecho que se segue:


Analisando de maneira mais detalhada, podemos encontrar a crítica à xenofobia. A tira remete que os povos do oriente são ladrões. O exotismo do Oriente é estampado na linguagem (encantamentos, mercado de ladrões). A visão que o Ocidente tem (no geral) sobre o oriente é de que lá tudo é exótico, diferente, primitivo, mágico. Sabemos que esse conceito vem de muito tempo, mas trazendo a tirinha para a atualidade, ainda hoje o pensamento de muitos, inclusive os etnocêntricos, é de que as discrepâncias entre os dois hemisférios tornam o lado Leste inferior ou menos civilizado que o nosso.

Não afirmo que Dik Browne tinha esse pensamento ao desenhar a tira, até porque desconheço suas ideologias, mas é no mínimo curioso ver a figura de um bárbaro nórdico, que apesar de europeu, também seria condenado ao termo 'incivilizado' por seus vizinhos, se referir ao oriente dessa maneira.
Se aprofundarmos ainda mais a análise, seria necessário estudar as origens dos povos bárbaros, os conflitos do Oriente com a Europa ''civilizada'', conquistadora de terras do Novo Mundo.

Outro ponto interessante é o papel das mulheres na tirinha. A esposa Helga e a filha de Hagar ocupam posições domésticas na história, como várias antigas civilizações relegam tal papel às suas mulheres. Porém - para mulheres que viviam na idade média -  até que elas não se submetem a tudo que os homens querem. Em várias situações, Helga encarna o papel de poder dominante na hierarquia da casa. Semelhante ao que Honi faz com seus pretendentes...

Tendo castelos a invadir, batalhas a conquistar e decisões importantes a tomar, Hagar ainda precisa lidar com uma esposa que não baixa a cabeça aos seus caprichos e uma filha adolescente que lhe traz algumas dores de cabeça, como a maioria das garotas de dezesseis anos trazem aos pais, mesmo nos tempos mais modernos... 

A HQ usa do recurso satírico a fim de construir a crítica social a respeito do tema. Dik Browne faz essa ponte entre a idade média e a idade contemporânea: a qualidade de vida, dietas, impostos a pagar, liberdade feminina e a rotina do casamento são questões que um homem de hoje também tem que lidar. Seria uma família típica dos anos de hoje ambientada numa época que permite que seus homens usem chifres no capacete, guerreiem e pilhem seus prisioneiros. Tudo isso regado a muita cerveja (ou vinho).


Para se aprofundar mais nos conceitos de Oriente, barbarismo e quadrinhos como recurso de ensino, segue a bibliografia abaixo...

RAMOS, Paulo. Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula. Editora Contexto, 2007.
MCCLOUD, Scott. Desvendando os quadrinhos. Editora M. Books, 2004.
SAID, Edward W. Orientalismo - O oriente como invenção do ocidente. Editora Companhia das Letras, 2007.


8 Comentários:

Morgana Brunner Says:
20 outubro, 2016

Oiii querida, como vai?
Adorei o assunto abordado nessa postagem, raramente percebe-se isso e toda essa interação de opiniões em quadrinhos, vou ver se acho para comprar e refletir também.
Beijinhos

Rodrigo Costa Says:
22 outubro, 2016

Gostei do post. Achei super válido informar a nós leigos, um gênero tão conhecido mas tão pouco estudado.

Abraço;

http://estantelivrainos.blogspot.com.br

Fabrica dos Convites Says:
23 outubro, 2016

Oi Maria, realmente, normalmente quando leio HQ não me pego pensando nas mensagens que eles podem estar enviando. Posso vim a pensar depois da leitura, mas dificilmente ao longo dela. A forma como você usou o HQ para passar o que você queria explicar foi perfeita, simples e direta.
Bjs

Licavargas Says:
24 outubro, 2016

Uma postagem mais do que interessante. Primeiro por informar um pouco mais de história para quem quer sem ter um texto academico que por muitas vezes pode confundir...
Outro ponto é que faz pensar que as vezes lemos somente por ler, sem pensar muito no que o autor quis dizer, ao que ele quis se reportar ou que mensagem quis passar. Acho que isso acontece muito nos HQs - onde por muitas vezes as críticas estão ali e a gente não percebe direito (ou por não notar ou por achar que é só um quadrinho!).
gostei muito da ideia da postagem!!!!
Beijinhos,
Lica
Amores e Livros

Marijleite Says:
25 outubro, 2016

Olá, achei super interessante o seu post; muitas vezes lemos uma tirinha e não paramos realmente para refletir sobre o que ela quer dizer ou em que contexto ela está ou como poderíamos relacioná-la aos dias atuais.

Michele Lopez Says:
26 outubro, 2016

Olá,
Gente quanta coisa você conseguiu abordar em uma tirinha.
Com certeza todos esses apontamentos passariam por mim mais que despercebidos e eu só daria uma risada.
Nunca fui muito ligada à História, mas achei bem interessante a abordagem e a análise que fez a partir da tirinha e também as dicas de como usá-las para ser uma forma diferenciada e mais lúdica de tratar do tema.

http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

Débora Costa Says:
27 outubro, 2016

Eu sempre adorei essas tirinhas. Meu objetivo é ter a edição delas todas na minha estante um dia.

http://laoliphant.com.br/

Mairton Salvattore Says:
27 outubro, 2016

Hagar fez parte de minha infância era a primeira tirinha que lia no jornal. rs. Muito interessante você reservar esse espaço no blog, assim podemos conhecer ou relembrar grandes momentos em HQs. :)

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