Condenada, de Chuck Palahniuk [#MLI2016]

| 10 julho 2016 | |
"Está ai, Satã? Sou eu, Madison. Acabei de chegar aqui, o Inferno, mas não é minha culpa."

E mais uma vez escrevo com a sensação de ter sido socada no estômago. A leitura que me desconforta me atrai demais. Mas não esperava ver num livro aparentemente sobre uma guria que morre aos 13 anos por overdose de maconha e vai para o Inferno, as críticas tecidas de maneira tão inteligente e mordaz escritas pelo autor, Chuck Palahniuk [conhecido aqui no Brasil por Clube da Luta]...


Madison se encontra morta e no Inferno, mesmo sendo uma adolescente que tinha tudo pra viver ainda... Ela narra sua estadia por lá e encontra figuras bem distintas, de padrões bem familiares encontrados aqui na Terra, tais como o nerd, o punk de moicano azul, a líder de torcida 'cocotinha' e o valentão esportista. Ao fazer amizades, ela já vai se habituando e explorando o lugar além de sua cela mal-cheirosa, em que não seria legal encostar nas grades... E nesses passeios pelo reino de Hades, ela se depara com uma perseguição que quase lhe custa ser comida por um demônio, naquele ritual que fazemos ao comer tortuguita...

Digamos que a partir dessa cena B-I-Z-A-R-R-A EXTREME, ela ganha 'alguns pontos' por lá... Madison narra como era sua vida antes de ir parar ali. Filha de um casal de ricos famosos, extremamente narcisistas e desleixados com a atenção que deveriam dar a filha, são do tipo de ricos que adotam crianças esfomeadas do Nepal, da África ou Índia para fazer pose de bons samaritanos. A mãe é uma das personagens mais detestáveis que já vi na literatura, fútil e egoísta, com ares 'apavoneados' [isso existe?] de quem se importa [e acha] que faz algum bem a filha. 

"Uma das grandes convicções políticas de minha mãe é que, se as pessoas querem com tanto desespero vir para os Estados Unidos, arrastando-se pelo rio Grande e colocando a própria vida e membros do corpo em risco, apenas pela oportunidade de colher nossa alface e alisar nossos cabelos, bem, devemos permitir. Nações inteiras não desejam nada além de ter a oportunidade de esfregar o chão da nossa cozinha, ela diz, e impedi-las de fazê-lo seria uma violação dos direitos humanos mais básicos."

A crítica do autor é clara, e ele usa uma garota de treze anos sem reservas na língua e toda a carga psicológica que a adolescência nos traz nessa fase, para criticar a futilidade em que está mergulhada 'por tabela', já que viveu naquele meio a contragosto,  e lhe foi dessa forma descortinada a sociedade. A mãe de Madison seria a representação da classe rica que oprime a classe pobre, achando que lhes presta um grande favor. 

Madison possui um vocabulário sarcástico, e faz referências que vão de Tom Sawyer a'O Paciente Inglês. Sua linguagem é crua e de humor mordaz. A descrição do Inferno é feita com boas doses de escatologia. O nerd que ela conhece - Leonard - apresenta toda a hierarquia do local, como bom estudioso que é/foi. Há presente na obra uma alfinetada aos hábitos adolescentes que a cultura do 'você precisa agir assim para ser aceito' nos empurra goela abaixo. Num contexto geral, a religiosidade também ganha seu julgamento, em seus conceitos de certo, errado e moral. 

"Hoje em dia, se qualquer uma das minhas amigas vivas se sentar no quarto vomitando o dia todo, o diagnóstico será bulimia. Em vez de chamar um padre para confrontar a menina sobre seu comportamento, expressar amor e preocupação e desalojar o demônio que a possui, famílias contemporâneas entram em terapia comportamental. É esquisito pensar que até 1970 líderes religiosos jogavam água benta em meninas adolescentes com distúrbios alimentares."

Os pais eram hippies na adolescência e tentavam adotar um estilo de vida saudável que desse publicidade em frente aos  holofotes. Incentivavam a filha a se drogar, andavam nus, sem pudor algum dentro de casa, possuíam imóveis em várias partes do mundo, empregando somalianas em cada uma delas. Adotavam crianças para empurrá-las em internatos depois... Um deles, Goran, tem papel fundamental no destino de Madison e sua ida ao Reino dos Mortos... Ele foi o transgressor, considerado psicopata por permanecer à margem dos 'bons costumes da civilização' que todo adotado deveria por em prática. 

Palahniuk ousou em trazer ao leitor uma obra tão repleta de metáforas que podem ser analisadas sem perder a dosagem de 'leitura para entreter.' No fim das contas, a máscara do sarcasmo usada por Madison encobria a carência de uma garotinha que só desejou o amor e presença dos pais em vida. Como não conseguiu, suas atenções se voltaram para Satã. Talvez ele notasse a menina que ficou trabalhando no setor de telemarketing do inferno, ligando para pessoas doentes terminais e os incentivando a acabar com aquilo, pois do outro lado eles seriam mais felizes... E assim, mais almas eram angariadas para Satã. Qualquer pequena infração era motivo para condenação... por essas e outras o Inferno anda tão cheio...

Quanto ao desfecho, descobrimos o papel de Goran na morte de Mad. Há uma chance de visitar a Terra e ela se chama Halloween. E a garota e seu séquito saem fantasiados deles mesmos mas precisam voltar antes da meia-noite, senão ficarão presos por um ano inteiro sem que os vivos lhe sintam a presença... Vendo as crianças vivas se divertirem, a nostalgia/melancolia invadem o pensamento da protagonista, bem como sua desesperança no 'amanhã' daqueles futuros adultos...


Vem estimulante essa passagem, não é mesmo? 
O que acontece depois? Ainda não sei. Preciso ler Maldita para descobrir...


10 Comentários:

Cantinho Para Livro Says:
10 julho, 2016

Apesar de achar um livro pesado gostei por demais do enredo já que o mesmo são coisas que normalmente gosto de ler tirando a parte que a mesma vai pro inferno, mais acho que seria uma leitura incrível e de outro mundo.

- fecprates Says:
10 julho, 2016

Olá
Infelizmente ainda não li nada do autor, mas tenho muita vontade de conferir. Gostei da premissa e acho que para mim seria uma ótima leitura. Fiquei curiosa sobre as metáforas e demais críticas ao longo do enredo. Mas fiquei ainda mais surpresa com as descrições de alguns acontecimentos, pois eu nunca iria imaginar tais ocorrências. Enfim, desejo muito ler!

Beijos, Fer
www.segredosemlivros.com

Delmara Silva Says:
11 julho, 2016

Oi
ainda não nada do autor, mas não creio que esse seja um bom candidato a primeira leitura, achei a premissa meio tensa e não sou muito de ler obras que envolvam céu ou inferno direta ou indiretamente, não sei bem porque, mas não me sinto confortável com certas abordagens e por isso acabei excluíndo em definitivo esse tipo de premissa das minhas listas de leitura. Amei sua resenha, suas descrições são incríveis, parabéns mesmo.

Abçs
Nosso Mundo Literário

Francine Porfirio Says:
11 julho, 2016

Senti orgulho de mim mesma por ter adquirido essa obra! Hahaha. Mas, bem, ainda não consegui me organizar para lê-la. Mesmo assim, adorei ver sua opinião positiva e perceber que destacou elementos que certamente me atrairiam também. Adoro quando um autor traz à tona questionamentos relevantes a partir de uma narrativa impactante e repleta de metáforas. Com certeza, vou curtir muito esse enredo!

Beijos!
www.myqueenside.com.br

Lud Says:
11 julho, 2016

Oie tudo bom??

ainda não li nada desse autor, mas todo mundo só tem elogios para ele.
Esse em particular, eu já vi várias criticas excelentes sobre o livro.
O autor sabe abordar todos os temas certos, e possui esse toque de ironia que nem todas as pessoas consegue entender.
É um autor que não tiro da minha lista porque você consegue ver a critica implícita no enredo do livro.

=)

Bruna Costabeber Says:
11 julho, 2016

Olá!
Ainda não li nada do autor e confesso que não tenho curiosidade de ler :(
Acho que a crítica do autor é incrível nesse livro e achei o uso das metáforas extraordinário, mas não me sinto impelida a fazer a leitura. Para o livro me agradar e chamar minha atenção, faltou alguma coisas.
Parabéns pela resenha, mas esse livro não é pra mim :(
Beijos,
Um Oceano de Histórias

Sophia Merkauth Says:
11 julho, 2016

Nossa! Que livro! Adorei sua resenha e até ri em alguns momentos. Me corrija se estiver errada, mas percebi pelos seus comentários que o livro está mais para um humor negro do que para pesado, é óbvio que o autor levanta vários questionamentos que pertinentes a realidade atual, o que considero fantástico! Dica anotada! Bj
http://colecionandoromances.blogspot.com.br/

Daiane Says:
14 julho, 2016

Olá, tudo bem? O livro não me chama atenção nem a primeira nem a segunda vista rs, ele não faz o estilo de tramas que costumo ler. Mas, de vez enquanto é bom sair da zona de conforto, né?! No dia que bater essa vontade, e se eu tiver a oportunidade, dou uma chance a leitura, quem sabe ela não muda a minha opinião.

Beijos,
Dai | Blog Cheiro de Livro Nacional

nathalia silva Says:
14 julho, 2016

Esse livro pelo que vejo deve trazer uma ótima leitura para os seus admiradores. Afinal, o enredo é bem diferente e original. Além disso, o ambiente que se passa a história, a critica feita pelo autor que aliada a doses de uma humor negro devem fazer dessa obra uma leitura bem pensada e estimulante. Confesso que não compraria o livro pois realmente não faz o meu gênero, no entanto, é inegável que o autor apresenta uma obra muito diferente e aparentemente muito bem escrita.

Vento Literário / No Facebook / No Twitter

Leituras Compartilhadas Says:
18 julho, 2016

Chuck Palahniuk produz uma literatura muito inteligente e extremamente crítica. Não conheço esse livro dele, mas pelo que já conheço do autor, e pela sua resenha, creio que arriscaria a leitura se pensar duas vezes. Gostei de saber que a obra é rica em metáforas, isso me agrada bastante. Esse já vai para a minha lista.

Tatiana

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