Misérias Anônimas...

| 20 maio 2016 | |
Eis mais uma leitura da Chiado Editora que me deixa no mínimo perturbada, saindo adoravelmente de minha zona de conforto... [na verdade não saindo tanto assim...] Misérias  Anônimas, de Paulo Viana, é o retrato ficcional da não-ficção de muitos, e que ilustra bem o cotidiano de famílias imersas no descaso e nas tristes fatalidades do destino...

"O velho poste de madeira emitia uma  amarela agourenta sobre as duas crianças que brincavam em uma viela imunda ao pé do morro. Ao lado, uma imensa escadaria serpenteava dividindo o Morro de Santa Virgínia ao meio. Os barracos de madeira e zinco e as vielas labirínticas davam ao morro uma aparência de formigueiro desordenado."

O cenário principal é o Morro de Santa Virgínia. Ousaria dizer que a favela é em si um protagonista, que enreda e entrelaça os ali viventes numa teia de desastres partilhados ao longo de anos... figuras anônimas que ganham nomes nessa obra, e cada uma delas representando um indivíduo da vida real...

Um garoto é abusado constantemente pelo próprio pai, enquanto assiste a sua mãe ser espancada em seu barraco pobre no morro. A fim de aplacar a dor das surras, Antonia se refugia nos livros de romance. Outra que é abandonada pelo pai de seus filhos e após uma tragédia, perde um de seus rebentos... Há também uma garota que vive em função de cuidar de sua mãe doente. Uma mulher jogada num asilo depois de ter sua fortuna roubada pelos próprios filhos... O destino dessas pessoas se choca, dando vida à uma cantora pop famosa mais de uma década depois. E que precisa retornar ao seu passado, a fim de enterrar de vez o sofrimento de toda sua infância naquele lugar esquecido por muitos...



Uma mãe drogada, fome, medo da polícia, problema com moradias, pai bêbado e violento podem soar clichês como elementos para essa trama, mas estão tão bem estruturados que parecem soar como uma música, melancólica e triste. Juntem a arrogância de alguns e o desprezo de outros, bem como o muro invisível que separa pobres e ricos e temos um retrato bem fiel à realidade brasileira, e o autor consegue dar voz e vez à mãe que perdeu seu filho num mar de lama após a tempestade por abaixo os barracos da encosta, à filha que se deixa seduzir depois de muito resistir aos encantos do tráfico, que promete vida fácil, mesmo perigosa. Tal sedução se sobressai às misérias da vida na favela, e no fim das contas, parece ser o único caminho disponível a se trilhar por pessoas como ela...

Outro ponto importante a frisar nessa obra, que cumpre bem o papel de crítica social é a posição da mulher, em vários aspectos, que labuta para sustentar os filhos, depois que o homem da casa vai embora. A violência que permeia a vida de Antonia, Eugênia, Henrieta e Hercília, de Amália e Anabela supera o físico, abala o psicológico dessas mulheres, atinge as camadas mais profundas de suas existências. E até Giovanna, a artista pop que volta para encarar seu passado, tem demônios a enfrentar e que atormentam seu espírito. E falando em Giovanna, além de negra, simboliza outro tipo de indivíduo execrado pela sociedade, mas que valendo-se do campo ficcional, Paulo Viana permite a ela um final feliz...

Sobre a parte técnica do livro, se houve algum erro em sua diagramação, as lágrimas que derramei em alguns trechos fizeram passá-lo despercebido... Uma capa belíssima [a obra Retirantes, de Cândido Portinari] simboliza muito bem o retiro de alguns daquela aridez de vida na favela... seja para uma melhor vida, seja para o desconhecido ou para a morte, em alguma sepultura no alto do morro...

"Nossa existência não é nada mais que um curto circuito de luz entre duas eternidades de escuridão." Vladimir Nabokov.

6 Comentários:

Nina Spim Says:
22 maio, 2016

Oi, tudo bem?

Puxa, sabe qual livro este me lembrou? O Cortiço! Justamente por você dizer sobre a favela ser uma espécie de personagem também. Achei a diversidade de personagens muito boas e muito representativa, algo bastante rara na literatura atual. Sinto falta de ler essa parte da literatura, que se importa com o real, com aquilo que realmente está espelhado na sociedade. Com certeza, isso me chamou muita atenção! Adoraria ler! Obrigada pela recomendação! :)

Love, Nina.
http://ninaeuma.blogspot.com/

Gleyse Vieira Says:
22 maio, 2016

Oi Val, como sempre você nos apresenta obras diferentes e que sempre me deixam curiosa, pois eu gosto desse tipo de leitura. Que bom que você escolheu esse livro para resenhar! Parabéns. Bjs

Catrine Vieira Says:
22 maio, 2016

Ooi Val, tudo bem?
Amo esse fundo do seu blog haha
Então, esse livro seria uma supeeeeeer saída da minha zona de conforto. Confesso que não seria uma primeira opção pra mim. Ao contrario de você, não gostei da capa, achei um tanto estranha. A premissa também não me cativou, mas leria para dai aquela saida da zona de conforto e conhecer mais sobre.
Beijoos!
http://estantemineira.blogspot.com.br/

Morgana Brunner Says:
23 maio, 2016

Oiii linda, tudo bem?
O tema retratado na obra realmente despertou meu interesse, mas não sei se leria, pelo fato de ser uma leitura forte dessa maneira e das últimas tive um certo problema. Anotei a dica!
Beijinhos

Juliana França Says:
25 maio, 2016

Fiquei curiosa pra ler! <3

Bruna Souza Says:
27 maio, 2016

oi, tudo bem?
o livro parece ser forte, por retratar temas tão reais e, infelizmente, comuns. Gostei de saber que atuou bem como crítica social
beijos
http://meumundinhoficticio.blogspot.com.br/

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