Semana Especial Claudio Duffrayer - Entrevista Parte III + Sorteio

| 26 fevereiro 2016 | |
E hoje eu trago para vocês a parte final da entrevista com Claudio Duffrayer. 

TN – Conte-nos um pouco sobre seu processo de escrever, motivação, conceitos, processo.


Primeiro eu gostaria de lembrar alguns versos do poema “O Sonho da Argila”,do livro “Narciso Cego”,de Thiago de Mello.São esses: “Que a palavra da boca é sempre inútil/se o sopro não lhe vem do coração.” Tendo essas palavras em mente, vejamos o que diz Ted Hughes sobre o processo criativo de Plath(uma das poetisas a quem dedico meu livro): “Ela nunca em sua vida havia improvisado. As forças que a compeliam a escrever tão lentamente haviam sido sempre mais fortes que ela. Mas de súbito ela se encontrou livre para deixar-se cair,ao invés de engatinhar sobre pontes de conceitos.(...)[Plath]foi capaz de tirar vantagem de todas as forças de uma educação altamente intelectual,altamente disciplinada que haviam,até aquele momento,basicamente funcionado contra ela.[Ela]agora escrevia rapidamente,como alguém escreve uma carta urgente.A partir de então,todos os seus poemas foram escritos dessa maneira.”

Gosto especialmente desse trecho(e talvez o cite com mais frequência do que deveria) porque me identifico com esse processo. Plath rompeu as rédeas. Isso é o que importa.Tornou-se livre.Como mulher.Como artista.Como poetisa.Não podemos esperar mais do que isso.Não é à toa que ela é reconhecida como uma das maiores poetisas do século XX. E as críticas de Hugh Kenner a esse
pensamento são realmente deprimentes. Diz ele:

“O que havia, segundo Ted Hughes,‘funcionado basicamente contra ela’ era uma série de hábitos que,se entendo bem,manteve-a produtiva e viva.” São palavras frias. Distantes. Típicas de um intelectual que aborda o “objeto” de sua análise não só com luvas mas através de um microscópio.Alguém sem um pingo sequer de criatividade-e criatividade e sensibilidade é o que se espera,também,de um crítico literário.

Não,Sylvia Plath não pagou com sua própria vida por entregar-se.Ela viveu ao entregar-se.Ao deixar-se cair.Sem agradar nem comportar-se- causando verdadeiros ultrajes com poemas como “Papai” e o famoso(infame?)“Lady Lazarus”.De qualquer forma,as palavras de Kenner(que de certa forma
convergem com as de Harold Bloom- a quem não me darei ao trabalho de citar) levam-me às palavras de outro autor que admiro. 

“Isso me faz lembrar um conto húngaro, em que um ferreiro fazia operações de catarata com um instrumento rústico, mas sempre com muito êxito. Sua fama trouxe até ele os sábios da medicina, já viu! Deitaram tanto conhecimento em cima do pobre ferreiro que acabaram por inibi-lo,a ponto de ele nunca mais conseguir levar a cabo uma cirurgia. Aqueles sábios procuraram provavelmente compensar sua falta de talento para fazer com um suposto conhecimento de como fazer.”(Nassar,Raduan,in Cadernos de Literatura Brasileira,Instituto Moreira Salles,São Paulo;p.28-grifos meus).

Nunca permiti que qualquer “educação” me impedisse de escrever ou contivesse minha criatividade. Até porque, enquanto tive acesso a essa suposta educação(formal,competitiva,intelectualmente castrante)eu não escrevia poesia.Sequer pensava nisso.Eu não era exatamente um aluno exemplar na 
escola.Aprendi a escrever lendo(romances de mistério e espionagem,gibis da D.C-antes que suas páginas mais parecessem páginas de revistas masculinas),e por isso me saia razoavelmente bem nas matérias relativas às ciências humanas(ainda assim,não suportava o ensino da gramática normativa).

Pois bem:quando comecei a escrever poesia,ou melhor,quando descobri a poesia,eu escrevia porque precisava,como já expliquei.E assim continua sendo.Trabalho sempre em cima de uma imagem.Uma figura.Ou mesmo a melodia de uma música- por isso minha poesia é tão imagética.Não sigo rotinas,escrevo quando sinto o ímpeto(não gosto daquela outra palavra com “i”).E escrevo quando não me sinto bem,em um processo catártico.Escrevo porque preciso.Talvez por isso meus poemas pareçam tão sombrios para alguns.Nunca participei de oficinas pois não acredito nisso.Sinto que o 
poeta,como todo o artista,deve ter liberdade para cometer seus próprios erros. 

Talento leva, necessariamente, à espontaneidade. Não se pode domá-lo, mas lapidá-lo(como a um diamante),e isso é algo que o artista deve fazer com suas próprias mãos,da maneira que considerar melhor.Não existem rédeas a ser puxadas,existe entrega (insisto nessa palavra).E através de entrega,trabalho e muito sofrimento(o trabalho não é fácil,afinal- os poemas não caem no nosso
colo,ao contrário do muitos possam vir a pensar)chegamos à nossa própria voz,atingimos nosso próprio estilo sem ser sufocados por “escolas” já existentes.Não devemos nos violar para encaixar nesse ou naquele lugar pré-estabelecido. O conhecimento teórico, lógico, é uma busca, e tenho um pouco de pena de um poeta incapaz de teorizar sobre sua própria obra- por mais paradoxal que possa parecer.O conhecimento é uma ferramenta a ser usada como achamos melhor,não uma coleira para nos domesticar.Conhecer é saber.E saber é saborear.Aproximar-se.Queimar-se, se preciso. Reconstruir-se. Renascer das cinzas. De novo e de novo. Sem medo das feridas que inevitavelmente virão.

Afinal,a arte não é segura.Nem deve ser.Como a própria vida.

-------


Para fechar a Semana Especial, tem sorteio. O vencedor irá ganhar um exemplar do livro Noturna e outros poemas, que será enviado pelo autor num prazo de 30 dias. Confira as regras para participação:



Regulamento

Preencher o Formulário Rafflecopter de maneira correta.
Ser residente em território nacional.
Não é de responsabilidade do blog qualquer extravio dos correios.
O sorteio inicia hoje, 26/02/16 e vai até 26/03/16.
O vencedor tem até dois dias para responder o e-mail com os dados para envio. Se passar do prazo, outro sorteio será realizado.
Perfis fakes ou usados apenas para promoção serão desclassificados.
O envio do livro é de inteira responsabilidade do autor Claudio Duffrayer. O blog se isenta de qualquer problema que ocorrer com o envio.
Boa sorte a todos que participarem!!!

a Rafflecopter giveaway

9 Comentários:

Camila Coelho Says:
27 fevereiro, 2016

Primeiro quero dizer que acho seu blog muito lindo.
Acho bacana entrevista com autores, uma ótima forma de conhecermos mais sobre quem está atrás dos livros que tantos amamos.
Só não vou participar do sorteio porque nãosou muito fã de poemas.
Bj
Camila Bernardini Coelho

Brenna Damaceno Says:
27 fevereiro, 2016

Oi, adoro entrevistas com autores, é uma boa forma de permitir o leitor de conhecer o escritor.

http://mysecretworldbells.blogspot.com.br/

Fabrica dos Convites Says:
27 fevereiro, 2016

Apesar de.continuar gostando dos HQ da DC tenho que concordar que os desenhos estão bem mais sensuais do que era antigamente, e achei ótimo o autor ter citado isso. Aliás gostei muito da postura dele e a forma como defendeu suas idéias e por consequência a Plath.
Bjs, Rose

Kamila Villarreal Says:
27 fevereiro, 2016

Olá!

Muito interessante o ponto de vista do autor. Não o conhecia, mas não curti o estilo dele, continue trazendo entrevistas, elas enriquecem o blog! Boa sorte aos participantes.

resenhaeoutrascoisas.blogspot.com

Stefani Almeida Says:
28 fevereiro, 2016

Ola tudo bem?

Primeira vez no blog =)

Adoro ver entrevista com autores, permite saber muito mais sobre as preferências e novos projetos. Não conhecia o autor e nem o livro. Não gosto de livros d poemas mas acho lindo.

Bjos

http://rillismo.blogspot.com.br/

Ana Paula Lima Miranda Says:
28 fevereiro, 2016

Oii!

Gente que amor essa resposta! Sério! Muito querido o autor ao relatar tudo com detalhes, nós não sabemos como é trabalhoso esse processo.
Adorei!

Beijinhos

Saga Literaria Says:
29 fevereiro, 2016

Olá,

gosto de ler entrevista com autores, achei legal o relato do autor, já imaginava que era um trabalho árduo esse processo, admito que não conhecia o autor. www.sagaliteraria.com.br

Livia Castro Says:
02 março, 2016

'Afinal,a arte não é segura.Nem deve ser.Como a própria vida.'
Fechou com chave de ouro!
Não conhecia o autor, mas confesso que não sou muito fã de poemas, pouquíssimos conseguiram me encantar. Mas anotei a dica pra quem sabe, um outro momento. Boa entrevista!

Beijo.
www.escritacolorida.com.br

Livros & Tal Says:
02 março, 2016

Oláa!!
Adoro entrevista pq nos permite conhecer mais os autores e tal. No caso, não conhecia o Claudio e gostei muito da entrevista.
Muito legal o sorteio, vou participar depois :3

beijos
Livros & Tal

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