Syngué sabour [Pedra-de-paciência]

| 04 outubro 2015 | |
Li as quase 150 páginas de Syngué sabour em poucas horas, tal a fluidez que a escrita do autor afegão Atiq Rahimi possui. E confesso, que apesar de fluído, é um livro que traz uma história profunda e que mostra a dificuldade de ser mulher num país de costumes opressores.. 

Uma mulher vela o corpo do marido, inconsciente há vários dias na cama, rezando com um terço e recitando o Corão. Duas filhas pequenas no quarto ao lado e a rotina esmagadora das horas e do mundo fora da janela... Eis a situação da protagonista, pois o seu marido tem uma bala alojada na nuca, a família os abandonou à própria sorte, enquanto a guerra desponta na cidade, ameaçando cada vez mais o refúgio sagrado dessa família...

"Longe, em algum lugar da cidade, a explosão de uma bomba. Violenta, talvez ela destrua algumas casas, alguns sonhos."

Com o passar dos dias, as bombas e ataques ocorrendo no bairro, e tendo que tocar a vida como se nada de ruim estivesse acontecendo, a mulher passa a conversar com o marido, e é nesse momento de sua existência, quando ele está quase a se despedir da vida, que ela revela segredos que guardava a sete chaves, que ocorreram antes e durante o casamento dos dois... 

"Seus dedos acariciam os próprios lábios e depois, nervosamente, enfiam-se boca adentro, como se quisessem dali extrair palavras que não ousassem sair."

Do começo ao fim do livro, a mulher não possui nome. Nem o marido. Mas o leitor não vai achar que isso seja um detalhe imprescindível na narrativa, pois a mulher poderia ser qualquer uma, por baixo daquelas vestes. Os momentos mais íntimos que ela tem com o seu marido são esses, em que ele se encontra num estado de quase-morte... E mesmo receando que ele retorne algum dia, ela conta, e segreda, desvela suas frustrações com o casamento, com a vida que levava com seus pais, com o futuro que ela não consegue prever, com o agora... 

Nessas confissões, a mulher lamenta a relação insípida com seu marido. Recorda o noivado e casamento sem o noivo, que estava guerreando quando deveria estar ao lado dela, pois a guerra parecia ser mais importante que a família. Reclama dos três anos que ele passou para finalmente consumar o casamento, da ausência, da sogra que a humilhava, da relação quase bondosa que tinha com seu sogro. Fala sobre as dificuldades de sua própria infância, com um pai violento numa casa cheia de mulheres. A medida em que ela conversa, vai cuidando da higiene do marido metodicamente, contando a respiração dele, sistematizando os movimentos do seu 'ao redor', dos barulhos da vizinhança e tendo ainda que lidar com invasões de homens perigosos. 

A mulher é um reflexo da situação feminina no Oriente Médio. Suas dores e frustrações denunciam o cotidiano de milhares de esposas e mães que vivem sob os horrores de ataques de bombas, e ao mesmo tempo lidam com o horror de uma relação de aparências e sem amor dentro dos próprios lares... Quanto ao desfecho de Pedra-de-paciência

Syngé sabour é um termo que se refere a uma pedra mágica que recebe os lamentos de quem se confidencia a ela. A mulher tem no corpo deitado do marido sua syngué sabour. Quando essa pedra está cheia demais, ela explode, estilhaça... 

É uma leitura tocante, e se você busca uma leitura leve e ao mesmo tempo algo que te deixe reflexivo, incomum e desesperançoso, Syngué sabour é o que você procura...


10 Comentários:

Airechu Says:
05 outubro, 2015

Oi, Valéria! Tenho visto aumentar cada vez mais a oferta de livros que tratam da questão social no Oriente Médio, o que acho ótimo e este é um tipo de leitura que ainda quero encarar. Eu adoro fantasia e histórias felizes, mas por vezes é bom levar um sacode, um choque de realidade e experimentar um drama contemporâneo. Ainda mais de uma cultura tão diferente da Ocidental e que nos chega sempre da maneira mais estereotipada e distorcida possível. Sua resenha me deixou muito curioso quanto a este livro e a sua história tocante, leve e intensa. Quero ler!


Airechu
Navegador da nave Interlúdio, navegando pelo Multiverso X
http://multiversox.com.br

Aline - Literalizando Sonhos Says:
06 outubro, 2015

Olá!
Não conhecia o livro, mas me interessei bastante.
Todos sabemos as opressões que as mulheres sofrem no Oriente Médio e a maneira que o autor encontrou para contar um pouco isso, ao meu ver, é ótima!
Com certeza irei ler se tiver oportunidade.
Beijos.

Li
Literalizando Sonhos

Francine Porfirio Says:
06 outubro, 2015

Oi, flor. Mais um livro que conheço aqui, no seu blog. Adorei ler a sua opinião. Achei muito interessante o vínculo da esposa com o marido morto e como esse vínculo, de certo modo, a manteve sã. Acho que, em meio à guerra, todos procuram se apegar a algo…

Beijos!
http://www.myqueenside.blogspot.com

Paac Rodrigues Says:
06 outubro, 2015

oie maria como vai?
o livro tem um enredo bem pesado mas infelizmente é uma realidade vivida por muitas mulheres do oriente médio, eu não sei se leria agora porque a leitura me soa um tanto dolorosa mas quero um dia ter estomago pra ler.

Marcio Silva Says:
06 outubro, 2015

Não curti essa capa e acho que no exato momento eu não relia esse livro, mas quem sabe um dia, pois talvez eu queira algo variado e esse é uma ótima dica... Gosto muito de sair dos intitulados "que nem foi o caso de SBeUPP".

Atenciosamente Um baixinho nos Livros.

Kétrin Galvagni Says:
06 outubro, 2015

Olá, eu não conhecia o livro ainda mas fiquei bem feliz de saber dele agora, parece uma leitura incrível e sensível, pela trama parece que eu iria me emocionar muito, achei muito legal mesmo. Espero um dia deses ter a oportunidade de conferir!

Beijos

http://www.oteoremadaleitura.com/

Marijleite Says:
07 outubro, 2015

Olá; achei sua resenha maravilhosa; eu ainda não conhecia o livro mas já fiquei sensibilizada com a história só pelo que li em seu post. Com certeza, é um livro que eu lerei.

Déborah Says:
08 outubro, 2015

Valéria, sua resenha e a história do livro são muito boas.
Não é o estilo de leitura que eu costumo gostar, mas achei a história dessa mulher tão humana e intensa que fiquei curiosa.

Lisossomos

Juliana Garcez Says:
09 outubro, 2015

Oi! Tudo bem?

Nunca tinha ouvido falar do livro. Encantei-me com a premissa! Nunca li nenhum livro em que os personagens não fossem nomeados. Acredito que essa obra irá me trazer boas reflexões... Adoro as dicas que encontro por aqui, pois são livros de conteúdos densos.

Beijos,

Juliana Garcez | Livros e Flores

Amanda Raupp Says:
24 novembro, 2015

Oii!

Achei bem diferente essa promissa e muito bacana também ^^
Já anotei a dica :) Adorei a sua resenha ^^

Beijos, Amanda *--*
www.vicio-de-leitura.com

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