A emocionante trajetória de Andrew Beckett em Filadélfia

| 24 outubro 2015 | |
Ainda não sei como iniciar o texto sem relembrar passagens tristes que me deixaram em estado de choro convulsivo por quase uma hora... Não consegui dormir direito, a leitura foi visceral e abalou os meus nervos... 



O livro em questão é Filadélfia, um romance escrito por Christopher Davis, baseado no roteiro de Ron Nyswaner, que fez grande sucesso e trouxe grande repercussão pelo tema abordado no inicio da década de 1990: a homossexualidade e a AIDS, bem como o preconceito vivido por soropositivos. 

Certamente você já ouviu falar do filme, e embora seja um de meus preferidos, só descobri que havia o livro durante minhas 'garimpadas' nos estandes da última Bienal aqui de Pernambuco. E qual não foi minha surpresa em me deparar com o título? 

A história fala sobre Andrew Beckett, um excelente advogado que trabalha numa firma tradicional e famosa da cidade de Filadélfia, nos EUA - a Wyant, Wheeler, Hellerman, Tetlow & Brown, como associado sênior. Recentemente, Andrew descobriu que tinha o vírus da AIDS, mas até então a doença não havia se manifestado ao ponto de pessoas do trabalho perceberem que tinha algo errado com ele. Até aquele momento...

Tom Hanks deu vida ao personagem Andrew Beckett...

Ele vive com Miguel, e quando seus superiores descobrem que ele tem o vírus, o demitem, de forma como se ele tivesse sido descuidado num importante caso, em que a documentação tinha desaparecido e depois é encontrada em cima da hora... Alegando incompetência, a firma o demite por justa causa. Andrew procura um advogado para processar a firma por discriminação, e o único que se propõe a ajudá-lo é Joe Miller, advogado que tinha recentemente perdido uma causa para Andrew. 

Tendo apenas o apoio da família, de Miguel e de seu advogado [apesar dele se mostrar relutante no contato com Andrew no início], ele vai passar por uma experiência drástica em tribunal, sendo alvo de olhares discriminatórios, humilhação e desgaste que vai acelerar ainda mais sua condição como soropositivo. E ele sabe que aquele outono será provavelmente o último que ele irá presenciar...
"O outono chegara a Filadélfia, não um outono frio, úmido, desolado, como muitos são, mas um outono claro, seco, fragrante. Os rapazes jogavam futebol americano nos parques, as suéteres saíam dos armários, novas turmas ingressavam nas instituições de ensino superior da cidade, e Andrew Beckett estava morrendo. Sabia que ainda lhe restava algum tempo, mas também sabia que não tornaria a ver outro outono, talvez nem outra primavera."
A história vai se desenvolvendo de acordo com as audiências de Andrew contra seus antigos patrões, mesclando momentos de sua luta contra a doença, que o consome pouco a pouco. Trata-se de um drama denso, que faz o leitor mergulhar por horas na leitura, e que oprime aqueles mais sensíveis. 

Denzel Washington no papel de Joe Miller


É notável o preconceito das pessoas ao redor, que quando descobrem a condição do advogado, temem se contaminar. Essa reação era bastante comum numa época em que não havia muita informação acerca da doença, e as pessoas pensavam que até um aperto de mão num soropositivo iria contaminá-los. Ao longo da leitura, me peguei pensando em como os soropositivos conviviam com toda essa carga de rejeição, apesar de que - nos dias atuais - esse tipo de comportamento ainda é notável, embora em menores proporções que no começo da 'epidemia'... Ter AIDS nos anos 80/90 era uma sentença de morte social, que antecedia a morte física do indivíduo, isolado por sua condição debilitante; situação agravada entre os gays, que já se deparavam com a discriminação por sua orientação sexual. Não é à toa que a AIDS foi conhecida nos primeiros anos como 'a praga gay'... 
"O motorista deu uma olhada pelo espelho retrovisor, observou mais atentamente o rosto de Andrew,e não disse mais nada. Concentrou-se em guiar. Quanto mais depressa eu chegar lá, pensou ele, mais depressa posso tirar esse leproso do meu carro."
Os diálogos entre Andrew e Miguel são extremamente doloridos. Miguel tem esperança que haverá uma cura que salve seu amor, mas Andrew percebe que essa cura não virá a tempo de salvá-lo... Durante o julgamento, a advogada Sra. Conine, tentava convencer o juri de que Andrew não era competente e que não houve discriminação por parte dos empregadores. Joe, negro porém homofóbico, se exauria em convencê-los da injustiça contra seu cliente. A esposa de Joe o lembrava todo tempo que ele não deveria agir de maneira preconceituosa com gays, em virtude deles, como negros, sofrerem o mesmo tipo de rejeição por parte da sociedade. Mas ao longo da história, Joe vai mudando, amadurecendo e logo se afeiçoa ao seu cliente, e é questão de honra ele conseguir ganhar a causa...

"Joe não respondeu de imediato. Já violara sua regra de não manter relações pessoais com os clientes ao vir à festa, e ainda mais trazendo a esposa, e depois Andrew convidara até sua secretária. Mas depois ele olhou para Andrew e, pela primeira vez, desde que o conhecera, não pensou que se tratava de um "gay", mas apenas que era "um homem que estava morrendo"; e se quisesse elaborar mais um pouco, teria pensado "um amigo"."

Andrew lutava contra o tempo para que o fim de seu julgamento lhe fizesse alguma justiça, pela humilhação sofrida, pela discriminação com relação à sua doença. Filadélfia é uma história profunda e impactante, que faz a sensibilidade aflorar ao mais alto grau... É impossível não se emocionar com ela...

Pra deixar vocês com vontade de ver o filme, eis o clipe da música-tema do filme, Streets of Philadelphia, de Bruce Springsteen...



"Eu estava ferido e esgotado e eu não entendia o que eu sentia...
Eu estava irreconhecível para mim mesmo...
Eu vi meu reflexo em uma janela.
E não reconheci meu próprio rosto...
Eu caminhei pelas ruas até minhas pernas adormecerem...
ouvi vozes de amigos desaparecidos...
À noite eu podia sentir o sangue nas minhas veias
negro e sussurrante como a chuva
nas ruas da Filadélfia...
Nenhum anjo virá me receber...
Somos só você e eu, meu amigo.
Minhas roupas não me servem mais
Eu andei mil milhas apenas para escapar de minha pele...
A noite caiu, eu estou deitado acordado...
Eu posso me sentir desaparecendo
Então me receba, meu irmão, com seu beijo infiel
ou nós vamos deixar um ao outro sozinhos dessa maneira
nas ruas da Filadélfia..."

Se eu tivesse uma chance única na vida de chegar perto de Tom Hanks, a única coisa que eu precisaria dizer a ele seria: thanks for Andrew Beckett... 

11 Comentários:

Kris Oliveira - Conversas de Alcova Says:
26 outubro, 2015

Val que interessante, nesse caso fez-se o caminho inverso né? Do cinema pras livrarias é raro.
Curti muito a premissa do livro, mas não sei se nesse momento eu teria coração pra ler.
Convivo com uma pessoa soropositiva e esse é um tema que me toca muito. Mas acho que vale muito a pena falar sobre, pra despertar a empatia nas pessoas, pois hoje em dia o que mata mais os portadores é o preconceito que a doença em si.
Como sempre, resenha maravilhosa!
beijooo <3

Gleyse Vieira Says:
28 outubro, 2015

Oi Val, eu também não sabia da existência do livro, mas tenho o DVD e é um dos meus filmes favoritos. O Tom Hanks estava brilhante no personagem, o Denzel também. A história é muito profunda, muito forte, as cenas chocam e nos mostram um lado muito cruel da situação dos soropositivos. A reflexão é muito boa e a forma como é contada é maravilhosa. Vou procurar o livro, fiquei querendo muito ler. Bjs

Déborah Says:
02 novembro, 2015

Valéria, eu já assisti ao filme e senti todo esse impacto com a história, assim como você falou.
Não fazia ideia de que existia o livro e agora estou muito curiosa para ler porque deve ser um olhar mais profundo sobre a história que já é tao boa.

Lisossomos

Helana Ohara Says:
07 dezembro, 2015

Oiee, nossa eu estou chocada e feliz ao menos tempo, um livro sobre esse filme é no mínimo maravilhoso.
AIDS ainda é um preconceito muito grande nos dias de hoje, mas naquela época era como se a pessoa respirasse e passasse para alguém, que bom que mudou.
Uma história de luta, dor. Impactante realmente.

Beijinhos, Helana ♥
In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

Maiara Vieira Says:
08 dezembro, 2015

Oi, tudo bem?
Não sabia da existência desse livro!
Já vi o filme muito tempo atrás e gostei bastante, então com certeza eu faria essa leitura.
Acho bem interessante o tema abordado na história, pois na época do filme e até hoje em dia, as pessoas com Aids sofrem muita discriminação.

Beijos :*
http://www.livrosesonhos.com/

Dany Says:
09 dezembro, 2015

Imagino que esse livro seja maravilhoso e muito emocionante. O Filme é lindo demais e de desidratar de tanto chorar!

Gabrielly Marques Says:
10 dezembro, 2015

Como diabos eu não sabia da existência desse filme? E com o meu amor Tom Hanks, ainda por cima!!! Só o início do post já foi o suficiente para me fazer ir correndo colocar como desejado, porque caramba, eu adoro livros emocionantes! hehe Sua resenha ficou maravilhosa! Também me pego imaginando como era ser um soropositivo naquela época...

Beijos
http://umaleitoravoraz.blogspot.com.br/

Débora Costa Says:
10 dezembro, 2015

Eu nunca nem tinha ouvido falar desse filme, meu deus! Eu sou completamente apaixonada pelos trabalhos do Tom Hanks, ele é incrível.

laoliphant.com.br

Leonardo Amarante Says:
10 dezembro, 2015

Eu já tinha ouvido falar do filme, mas nunca soube exatamente do que se tratava. Depois da sua resenha, vou procurar o filme e o livro. Gosto desse tipo de trama. Espero me emocionar como você!

Beijos,
Leo
http://www.segredosentreamigas.com.br/

Marijleite Says:
10 dezembro, 2015

Olá, ótima resenha! Acho que é minha preferida do seu blog até hoje. Eu não sabia da existência do livro, mas só de ler a resenha já me sensibilizei muito com a trama, certamente lerei quando puder.

Catharina M. Says:
11 dezembro, 2015

Oláá
Não conhecia o livro mas a resenha está bem legal e me deixou mega curiosa por tratar de temas interessantes e diferentes, boa dica

Beijos
http://realityofbooks.blogspot.com.br/

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