A trajetória de Chris McCandless rumo à natureza selvagem...

| 01 julho 2015 | |
"não há como trazê-lo de volta. Não tem conserto. Não sei se a gente supera esse tipo de perda. O fato de que Chris se foi é uma dor aguda que sinto todos os dias. É realmente duro. Alguns dias são menos ruins que outros, mas vai ser duro todos os dias pelo resto de minha vida." Billie McCandless, mãe de Chris...



Tive o prazer de ter em mãos o livro Na natureza selvagem, de Jon Krakauer, publicado pela Editora Companhia das Letras. graças a uma compra que fiz na livraria Saraiva, em que ele se encontrava em promoção por apenas 19.90. [O preço dele é 40.00 reais]. O autor estava na minha lista de experimentos literários. Fiquei sabendo da obra por meio do site filmow, e logo que vi a sinopse do filme, e descobri que era uma adaptação de um livro, fiquei bem curiosa para conhecer a história de Alex Supertramp, ou - como era seu nome de batismo - Christopher McCandless...

Chris era um rapaz de 24 anos, que foi encontrado morto dentro de um ônibus abandonado, numa paisagem inóspita do Alasca no ano de 1992. Provavelmente sua morte foi devido à inanição, por estar a mais de 100 dias vivendo nessa região erma, em que ele resolveu se isolar um pouco do mundo e viver em comunhão com a natureza, tirando dela o seu sustento... 

Chris pertencia a uma família abastada da costa leste americana e desde pequeno as pessoas percebiam que ele possuía algo de inquietante em sua personalidade. Após se formar em Direito, no ano de 1990, doou todo seu dinheiro para uma instituição de caridade que combate a fome, e saiu pela estrada com um carro, que logo abandonou quando percebeu que ele não seria mais útil a seu intento. Percorreu várias cidades dos Estados Unidos, pegando carona e fazendo amizade com vários desconhecidos - que futuramente saberiam o desfecho da aventura de Chris rumo ao Alasca e que através de seus depoimentos, o autor Jon Krakauer pôde escrever um artigo para a revista Outside e posteriormente, escrever seu livro...

Confesso que é difícil me conter em contar toda a história, pois o livro me deixou num estado de reflexão profunda. Várias perguntas permeavam minha cabeça ao longo da leitura e no íntimo, acho que sou do time de pessoas que compreendem Chris. Um rapaz jovem, rico, que tinha tudo para se tornar um excelente profissional em sua área e que abandona tudo em busca de uma aventura com desfecho fatal. Muitos o consideraram inconsequente, egoísta [por ter abandonado a família e amigos sem dar notícias por longos dois anos]. Mudou seu nome a fim de encobrir seu paradeiro. Mas acredito que o pouco tempo que viveu, e o período curto que passou na região alasquiana, que lhe custou a vida, foi proveitoso para ele de alguma forma. Acredito eu, que Chris encontrou o que buscava, de alguma maneira... 

"Tive uma vida feliz e agradeço a Deus. Adeus e que Deus abençoe todos." Chris McCandless, Agosto de 1992.

Krakauer faz um excelente trabalho biográfico, reunindo relatos de várias pessoas que tiveram contato com Alex/Chris ao longo do caminho. Um dos mais emocionantes para mim foi o do senhor de 80 anos, que havia perdido esposa e filho num acidente de carro, e resolveu 'adotar' Alex, e sentiu bastante quando o jovem resolveu seguir viagem. Vez em quando ele mandava postais para essas pessoas que ele encontrava, mandava para sua irmã Carine, a única da família com quem tinha um relacionamento afetuoso. Lendo a obra, de início parece que os pais dele eram pessoas ruins, a quem o filho tinha extremo ressentimento, mas quando nos aprofundamos na leitura, percebemos que o problema não eram os pais dele, e sim, o conceito de 'pais' em si... Poderia ser outro casal, creio eu que Chris sentiria por eles a mesma coisa que sentia por seus pais... A revolta 'infundada' do rapaz pode não ser compreendida ou justificada, mas de qualquer forma, tinha sentido para ele...

""Você via logo que Alex era inteligente", reflete Westerberg, acabando seu terceiro drinque. "Lia muito. Usava um monte de palavras pomposas. Acho que parte do que complicou sua vida talvez tenha sido que ele pensava muito. Às vezes fazia força demais para entender o mundo, saber porque as pessoas eram más com as outras. Um par de vezes tentei lhe dizer que era um erro se aprofundar tanto naquele tipo de coisa, mas Alex empacava. Tinha sempre que saber a resposta certa e absoluta antes de passar para a próxima coisa."."

Outro fator que gostei na abordagem de Krakauer é que ele acaba fazendo um paralelo da história de Chris McCandless com vários outros aventureiros que tiveram fim parecido com o rapaz, inclusive na mesma região onde ele faleceu. Jovens e pessoas mais maduras que arriscaram suas vidas em troca de alguma emoção, seja escalando montanhas, ou tentando sobreviver em ambientes inóspitos. Ao ler Na natureza selvagem, você conhece a trajetória de Chris McCandless e acaba descobrindo a vida de outros que não se tornaram tão famosos a ponto de ter sua vida narrada num livro... 

""Everett era estranho", admite Sleight. "Meio diferente. Mas ele e McCandless pelo menos tentaram seguir seus sonhos. Isso é que faz a grandeza deles. eles tentaram. Pouca gente faz isso."." 

O próprio autor se identifica com o rapaz, pois cometeu alguns atos de loucura escalando a Geleira Stikine, no Alasca. É interessante observar como o autor projeta sua aventura na aventura de Chris e na de outras pessoas citadas no livro... Confesso que grifei vários trechos significativos e impressionantes, que me deixaram desolada, e ao mesmo tempo sentindo empatia pela coragem desses aventureiros. Bom frisar que anotei várias referências de obras lidas por Chris, algumas delas eu já li, e outras já estavam em minha lista de livros para ler... Inclusive, graças a ele, resolvi dar uma nova chance a Thoreau...

"Ali, a geleira transborda abruptamente pela borda de um platô alto. [...] ao ver aquele tumulto a longa distância, senti realmente medo, pela primeira vez, desde que deixara o Colorado." Relato de Jon Krakauer sobre sua aventura escalando o Polegar do Diabo.

Chris gostava muito de ler e tinha nos autores Jack London, Tolstói e Henry David Thoreau seus maiores ídolos. Baseado nas narrativas fictícias de London, Chris resolveu se aventurar também. Em seu período em Stampede Trail, ele registrou em seus livros a sua trajetória no local, desde quando tentou voltar e o rio estava cheio demais para atravessá-lo e resolveu voltar para um ônibus abandonado que serviu de refúgio para ele naquele verão. Sozinho, ele passou várias semanas se virando para comer e se proteger do frio, usando de parcos recursos de sobrevivência e de pouca experiência em áreas remotas como aquela.

O interessante no livro é descobrir quem foi Chris McCandless não apenas como 'o cara que morreu dentro de um ônibus abandonado no Alasca'. Com a leitura, você conhece o ser humano que ele foi, do que ele gostava, do que ele odiava e afins. Muitas pessoas o tomaram por estúpido, outros, como o autor e eu, o tomam por um jovem de coragem, impetuoso, cheio de paradoxos que o tornavam uma figura única. Seus conceitos de moral e relacionamento social são descritos com maestria por Krakauer, e o leitor acaba criando empatia por ele e por tua trajetória...

"A parte mais dura é simplesmente não tê-lo mais por perto." Walt McCandless, pai de Chris...

Poderia me demorar mais nessa resenha, mas passaria horas escrevendo e discorrendo a respeito. Sem sombra de dúvidas, foi uma experiência mágica conhecer Chris McCandless/Alex Supertramp. Não quis me aprofundar nas pessoas que ele encontrou pelo caminho pois a resenha daria outro livro. Me perdoem a prolixidade, mas me foi impossível escrever menos do que os parágrafos contidos nessa resenha...

Quanto ao filme, ele tem uma perspectiva mais romantizada e se atenta unicamente à aventura do personagem, não focando em indivíduos citados no livro, além daqueles que tiveram contato com Chris. A trilha sonora é divina, desenvolvida por Eddie Vedder, vocalista da banda Pearl Jam. A adaptação cinematográfica é de Sean Penn e traz Emile Hirsch no papel de McCandless. 




Em suma, é um livro que recomendo a todos, a qualquer pessoa que possa se sensibilizar pela morte de Chris, àquelas pessoas que sonham em viver uma aventura em busca de si mesmo e de contato com a natureza. Uma história sobre coragem, entrega ao desconhecido e abandono de tudo em busca de liberdade... 


Alex Supertramp/Chris McCandless, poucos dias antes de sua morte por inanição...

19 Comentários:

Aline Souza Says:
01 julho, 2015

Ainda não tinha ouvido falar desse livro, mas pela sua resenha ele parece ter um conteúdo bem bacana. Estou muito curiosa pelo livro, espero poder lê-lo em breve.

Michelle Ladislau - As Leituras da Mila Says:
01 julho, 2015

Olá.
Tudo bom?
Não conhecia o autor e nem o livro, mas pela resenha, parece ser uma história bem interessante e realmente você o encontrou em uma promoção bem bacana e vou esperar ter esse preço especial e conferir.
Adorei sua resenha.
Beijos

Luan Sampaio - UGVL Says:
01 julho, 2015

Oi, Maria! \õ/
Eu não conhecia esse livro e se fosse só pela capa eu não leria, mas aquele velho ditado, não julgue um livro pela capa, bom, a premissa dele é bem interessante e adorei saber que o livro estava em promoção (e que valeu muito bem os R$:19.90, não é mesmo?) Pretendo ler esse livro brevemente e me aprofundar mais na vivência do Chris! Ótima resenha <3

Beijos,
Luan | http://umgrandevicioliterario.blogspot.com.br/

Rízia Castro Says:
01 julho, 2015

Infelizmente o livro não me convenceu.
Achei o título estranho e a sinopse não chamou minha atenção.
Apesar da sua incrível resenha, deixo para próxima.
Beijinhos
Rizia - Livroterapias

Danielle Peçanha Says:
01 julho, 2015

Não conhecia o livro e agora fiquei super interessada, adora livros com fatos reais.

Bjs

Livros & Tal... Says:
01 julho, 2015

Olá, boa noite!

Não conhecia esse livro e como a premissa não me encantou muito, acho que para conhecer um pouco mais, optaria por assistir ao filme pois não fiquei com vontade de ler o livro, enfim, quem sabe futuramente, hehehe. Mas para quem curte o estilo, com certeza é uma boa indicação.

Beijo!
Ana Luz - LT.

Diego Henrique Says:
01 julho, 2015

Resenha perfeita, Valéria!!!!
Muito bom, chega deu vontade de ler,assistir,ouvir... Tudo de novo... É sempre estranho e bom essa sensação que essa história me traz, sempre como se fosse a primeira vez... Uma sensação de estar só, comigo mesmo, e ter uma oportunidade de refletir a analisar tudo, com a paz que essa história me traz... É sempre estranho e bom, o sentimento que essa aventura de Supertramp traz consigo...E que senti bem frizado nessa tua resenha... Muito bom!! :) :) :)

Mariana Oliveira Says:
01 julho, 2015

O livro parece mesmo uma aventura, tragédias sempre fazem a gente refletir sobre a vida não acha? Parece uma história bem interessante.
Beijos

Gaby Cortez Harket Says:
02 julho, 2015

Olá :) Nunca tinha visto essa obra, :/ quero muito ler esse livro, Chris possui uma história trágica, acredito que é envolvente e tocante, o assunto do livro despertou minha curiosidade, desejo saber os motivos dessas suas escolhas, e saber mais sobre ele. A proposta do livro é instigante. :D Beijos!!!
Blog: http://my-stories-wonderful-books.blogspot.com.br/
Página: https://www.facebook.com/BlogWonderfulBooks

Dryh Meira Says:
02 julho, 2015

Oiee ^^
Lembro de ter visto esse filme na escola e pensado em comprar o livro, mas até agora tinha me esquecido completamente dele *-* Não acho que o Chris tenha sido egoísta, para mim, largar tudo para viver uma aventura, mesmo com um final trágico, é corajoso. Principalmente para ele, que era rico e tinha um futuro promissor pela frente. Já estou adquirindo o meu exemplar...haha'
MilkMilks
http://shakedepalavras.blogspot.com.br

Gleyse Vieira Says:
02 julho, 2015

Olá Valéria, adorei sua resenha. cheia de detalhes que nos deixam com muita vontade de conhecer a história desse personagem tão corajoso. Vou procurar o filme, senão o livro, pois adoro esse tipo de história. Bjs

Território nº 6

Déborah Says:
02 julho, 2015

Valéria, gosto de aparecer no seu blog porque sempre descubro algo novo.
Seu gosto e leituras são bem diferentes da minha. Gosto disso.
Achei a história bem triste, morrer sozinho e de fome é bem pesado.
Não sei se leria, mas gostei.

Lisossomos

Jess Leite Says:
03 julho, 2015

Olá!
Esse filme já está há um tempinho na minha lista de filmes a serem assistidos no filmow. Sempre que passa eu pego ele na metade =[
Agora fiquei curiosa a respeito do livro, que parece bem legal!
Vou tentar ver o filme e ler o livro agora nas férias.
Ótimo post!
Beijos!

www.livrosdajess.com

Julia Martins Says:
03 julho, 2015

Olá!
Espera... Deixa eu recuperar o fôlego haha que livro, que história! Vou procurar agora mesmo para ler, pois fiquei bastante interessada nele. Obrigada pela indicação ;)

Beijos
http://www.breakingfree.blog.br/

Kamila Raupp Says:
06 julho, 2015

Oii!

Nossa, que história!
Vou procurar o livro e tentar ler ele logo pois parece ser ótimo :)
Adorei a dica ^^

Beijos, Kamila *--*
www.vicio-de-leitura.com

Jéss Winchester Says:
06 julho, 2015

Oii, tudo bem?
Estou adorando essas suas resenhas de livros que nunca ouvi falar mas que me encantaram só com a sua resenha.
Enfim, acredito que ele tenha tido seus motivos para ter abandonado a família e seguir sozinho, só que ninguém entende ou muitos não querem abrir a cabeça e entender. Mas acredito que ele tenha sido muito feliz, apesar das dificuldades com frio, com comida, e acho que se fosse possível e ele pudesse, faria tudo de novo. Adorei muito a sua resenha.

Beijos da Jéss ♥
Brilliant Diamond | Fan Page

Angélica Lima Says:
09 julho, 2015

Oi Val, tudo bem?
Já tinha lido algo sobre o livro e não sabia que tinha o filme também, mas é algo que eu não sei se leria / assistiria, pois não curto muito obras biográficas.
Bjs

A. Libri

Juliana Piquerotti Says:
10 julho, 2015

Olá!

Não sabia do livro nem do filme, mas eu fiquei muito curiosa para ler. A sua resenha foi muito completa e me deixou agonizada querendo ler o livro agora haha.

http://loucurasaovento.blogspot.com.br/

Giovana Soares Says:
28 agosto, 2015

Oii, tudo bem?
Eu sempre vejo muitas pessoas falando super bem desse livro e não poderia estar mais curiosa, eu amo livros que nos fazem refletir sobre nossas vidas, então acho esse livro um boa pedida.

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