Escritores e poetas e suas cartas de amor...

| 12 junho 2015 | |
Hoje é dia dos namorados, data comemorada aqui no Brasil em 12 de junho, então resolvi fazer um post temático a respeito. Trata-se de um compilado que fiz de cartas que alguns autores enviaram às pessoas amadas. Então, vamos lá... Escolhi alguns autores que mais gosto. 

Fiódor Dostoievski para sua amada Anna Grigórievna Snítkina [1867].

"Bom dia, anjo querido, beijo-te muito. Pensei em ti durante todo o caminho. Acabo de chegar. Sinto-me cansado e instalei-me para te escrever. Acabam de trazer-me chá, e água para me lavar, mas no intervalo escrevo-te umas linhas. (…) Na sala de espera da estação andei de lá para cá a pensar em ti e dizia comigo: mas porque deixei eu a minha Anuska?
Recordava tudo, até ao mais ínfimo escaninho da tua alma e do teu coração. Desde que casámos que descobri não ser digno de um anjo tão doce, tão belo, tão puro como tu – e que crê em mim. Como pude eu deixar-te? Para onde vou? Porquê? Deus confiou-te a mim para que nenhuma das riquezas da tua alma se perdesse – pelo contrário, para que tudo se desenvolva e floresça rica e esplendorosamente. Deus entregou-te a mim para que, por ti, eu resgate os meus enormes pecados, ao apresentar-te a Ele amadurecida, conservada, salva de tudo o que é baixo e ofende o espírito. E eu (…) eu o que faço é perturbar-te com coisas tão estúpidas como a minha viagem a este lugar."


Machado de Assis, para sua amada Carolina de Novais [1869].

"Diz a Madame de Stael que os primeiros amores não são os mais fortes porque nascem simplesmente da necessidade de amar. Assim é comigo; mas, além dessa, há uma razão capital, e é que tu não te pareces nada com as mulheres vulgares que tenho conhecido. Espírito e coração como o teu são prendas raras; alma tão boa e tão elevada, sensibilidade tão melindrosa, razão tão recta não são bens que a natureza espalhasse às mãos cheias (…). Tu pertences ao pequeno número de mulheres que ainda sabem amar, sentir, e pensar. Como te não amaria eu? Além disso tens para mim um dote que realça os mais: sofreste. É minha ambição dizer à tua grande alma desanimada: «levanta-te, crê e ama: aqui está uma alma que te compreende e te ama também».
A responsabilidade de fazer-te feliz é decerto melindrosa; mas eu aceito-a com alegria, e estou certo que saberei desempenhar este agradável encargo. Olha, querida; também eu tenho pressentimento acerca da minha felicidade; mas que é isto senão o justo receio de quem não foi ainda completamente feliz?
Obrigado pela flor que mandaste; dei-lhe dois beijos como se fosse a ti mesma, pois que apesar de seca e sem perfume, trouxe-me ela um pouco de tua alma. Sábado é o dia da minha ida; faltam poucos dias e está tão longe! Mas que fazer? A resignação é necessária para quem está à porta do paraíso; não afrontemos o destino que é tão bom connosco. (…) Depois… depois querida, queimaremos o Mundo, porque só é verdadeiramente senhor do Mundo quem está acima das suas glórias fofas e das suas ambições estéreis. Estamos ambos neste caso; amamo-nos; e eu vivo e morro por ti."


Carta de Fernando Pessoa a Ofélia Queiroz [1920].


"Meu Bebé pequeno e rabino:


Cá estou em casa, sozinho, salvo o intelectual que está pondo o papel nas paredes (pudera! havia de ser no tecto ou no chão!); e esse não conta. E, conforme prometi, vou escrever ao meu Bebezinho para lhe dizer, pelo menos, que ela é muito má, excepto numa coisa, que é na arte de fingir, em que vejo que é mestra.
Sabes? Estou-te escrevendo mas não estou pensando em ti . Estou pensando nas saudades que tenho do meu tempo da caça aos pombos ; e isto é uma coisa, como tu sabes, com que tu não tens nada...
Foi agradável hoje o nosso passeio — não foi? Tu estavas bem disposta, e eu estava bem disposto, e o dia estava bem disposto também (O meu amigo, não. A. A. Crosse: está de saúde — uma libra de saúde por enquanto, o bastante para não estar constipado).
Não te admires de a minha letra ser um pouco esquisita. Há para isso duas razões. A primeira é a de este papel (o único acessível agora) ser muito corredio, e a pena passar por ele muito depressa; a segunda é a de eu ter descoberto aqui em casa um vinho do Porto esplêndido, de que abri uma garrafa, de que já bebi metade. A terceira razão é haver só duas razões, e portanto não haver terceira razão nenhuma. (Álvaro de Campos, engenheiro).
Quando nos poderemos nós encontrar a sós em qualquer parte, meu amor? Sinto a boca estranha, sabes, por não ter beijinhos há tanto tempo... Meu Bebé para sentar ao colo! Meu Bebé para dar dentadas! Meu Bebé para...
(e depois o Bebé é mau e bate-me...) «Corpinho de tentação» te chamei eu; e assim continuarás sendo, mas longe de mim.
Bebé, vem cá; vem para o pé do Nininho; vem para os braços do Nininho; põe a tua boquinha contra a boca do Nininho... Vem... Estou tão só, tão só de beijinhos ...
Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades de mim a valer . Ao menos isso era uma consolação... Mas tu, se calhar, pensas menos em mim que no rapaz do gargarejo, e no D. A. F. e no guarda-livros da C. D. & C.! Má, má, má, má, má...!!!!!
Açoites é que tu precisas.
Adeus; vou-me deitar dentro de um balde de cabeça para baixo para descansar o espírito. Assim fazem todos os grandes homens — pelo menos quando têm — 1º espírito, 2º cabeça, 3º balde onde meter a cabeça.
Um beijo só durando todo o tempo que ainda o mundo tem que durar, do teu, sempre e muito teu
Fernando (Nininho)."

Carta de Virginia Woolf para o marido, Leonard [1941]



“Meu Muito Querido:
Tenho a certeza de que estou novamente enlouquecendo: sinto que não posso suportar outro desses terríveis períodos. E desta vez não me restabelecerei. Estou começando a ouvir vozes e não consigo me concentrar. Por isso vou fazer o que me parece ser o melhor.
Deste-me a maior felicidade possível. Fostes em todos os sentidos tudo o que qualquer pessoa podia ser. Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes até surgir esta terrível doença. Não consigo lutar mais contra ela, sei que estou destruindo a tua vida, que sem mim poderias trabalhar. E trabalharás, eu sei. Como vês, nem isto consigo escrever como deve ser. Não consigo ler.
O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom.
Quero dizer isso — toda a gente o sabe. Se alguém me pudesse ter salvo, esse alguém terias sido tu. Perdi tudo menos a certeza da tua bondade. Não posso continuar a estragar a tua vida.
Não creio que duas pessoas pudessem ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.”
Decerto essa foi uma das mais tristes, por se tratar de uma carta de despedida, pois Virgínia se suicidou logo após...


Carta de Lord Byron a sua amada Teresa de Guiccioli [1819].

"Meu amor adorado: a tua querida cartinha ao chegar-me hoje às mãos veio dar-me o primeiro momento de alegria desde que partiste. O que eu sinto corresponde exactamente – ai de mim – aos sentimentos que expressas, mas é-me muito difícil responder na tua bela língua a essas doces expressões, que merecem uma resposta mais em actos do que em palavras. Espero, no entanto, que o teu coração seja capaz de sugerir tudo o que o meu gostaria de te dizer. Talvez que se te amasse menos não me custasse tanto exprimir o meu pensamento, pois tenho de vencer a dupla dificuldade de expor um sofrimento insuportável numa língua estranha. Desculpa os meus erros. Quanto mais bárbaro for o meu estilo, mais se assemelhará ao meu Destino longe de ti. Tu, o meu único e derradeiro amor – tu, minha única esperança – tu, que já me habituara a considerar só minha – partiste e eu fiquei sozinho e desesperado. Eis a nossa história em poucas palavras. É esta uma provação que suportaremos como outras suportámos, porque o amor nunca é feliz, mas devemos, tu e eu, sofrer mais ainda, pois tanto a tua situação como a minha são igualmente extraordinárias.
(…) Quando o Amor não é o Senhor de um coração, quando não cede tudo perante ele, quando não se lhe sacrifica tudo, então trata-se de Amizade, – de estima – de tudo o que tu quiseres, mas de Amor é que não.
(…) Antes de te conhecer estava sempre interessado em muitas mulheres, nunca numa só. Agora, que te amo, não existe nenhuma outra mulher no Mundo. Falas de lágrimas e da nossa desdita; o meu sofrimento é interior, não choro.
(…) Meu tesouro adorado – tremo enquanto te escrevo, como treme o mesmo doce bater de coração. Tenho milhares de coisas para te dizer e não sei como dizer-tas – um milhão de beijos para te dar, e, ai de mim, quantos suspiros! Ama-me – não como eu te amo, pois te sentirias muito infeliz; não me ames como eu mereço, pois não seria o bastante – ama-me como te ordena o coração. Não duvides de mim. Sou e serei sempre o teu mais terno amante." 

Henry Miller, em carta a Anais Nïn [1932]


"Tudo o que posso dizer é que estou louco por ti. Tentei escrever uma carta e não consegui. Estou constantemente a escrever-te... Na minha cabeça, e os dias passam, e eu imagino o que pensarás. Espero impacientemente por te ver. Falta tanto para terça-feira! E não só terça-feira... Imagino quando poderás ficar uma noite... Quando te poderei ter durante mais tempo... Atormenta-me ver-te só por algumas horas e, depois, ter de abdicar de ti. Quando te vejo, tudo o que queria dizer desaparece... O tempo é tão precioso e as palavras supérfluas... Mas fazes-me tão feliz... porque eu consigo falar contigo. Adoro o teu brilhantismo, as tuas preparações para o voo, as tuas pernas como um torno, o calor no meio das tuas pernas. Sim, Anais, quero desmascarar-te. Sou demasiado galante contigo. Quero olhar para ti longa e ardentemente, pegar no teu vestido, acariciar-te, examinar-te. Sabes que tenho olhado escassamente para ti? Ainda há demasiado sagrado agarrado a ti. "


Gostaria de acrescentar as cartas de Oscar Wilde a seu amante Bosie, mas o post ficaria deveras extenso... então, resolvi postar amanhã apenas sobre os dois, aguardem... ;) 
espero que tenham curtido o post e a pequena homenagem aos enamorados...

13 Comentários:

Marijleite Says:
13 junho, 2015

Olá; gostei muito do post, foi super interessante conhecer um pouco mais sobre os amores dos autores.

Maiara Vieira Says:
13 junho, 2015

Oi, tudo bem?
Achei um post bem diferente mais que tem tudo a ver com o dia dos namorados!
Amei ler as cartas dos autores a suas amadas e a seu amado no caso da Virginia! Gente quanto amor e quanta beleza nessas palavras!

Beijo :*
http://www.livrosesonhos.com/

Gisele Sousa Says:
13 junho, 2015

aai que post lindo, você arrasa sempre nas suas postagens!! ^^ Eu nunca tinha lido algo assim! muito legal mesmo!! <3

Ana Luiza Ferreira Says:
13 junho, 2015

Olá!

Adorei o post! Trocar cartas é uma coisa tão romântica e legal, pena que perdemos o hábito nos dias de hoje.

Beijos!
http://www.mademoisellelovesbooks.com/

Luanna Silva Says:
13 junho, 2015

Uma das coisas mais lindas para mim são cartas e quando as cartas são antigas, é algo extraordinário. É tão puro e bem escrito que você sente o amor saltar de cada palavra, coisa que hoje em dia é dificil acontecer, o amor se tornou muito liquido. Fora isso, antigamente existia aqueles amores proibidos, é muito gostoso ler aquilo, você torce tanto pelo casal que desejava voltar ao tempo e tentar ajuda-los. <3

Belo post, ideia brilhante!

http://teoremasdamimosa.blogspot.com.br/2015/06/6-coisas-que-acontecem-em-estreias_12.html

Jess Leite Says:
14 junho, 2015

Olá!
Adorei o post, mega interessante!
Achei todas as cartas lindas, é tão bonito esse tipo de declaração, tão puro, tão inocente. Prefiro cartas do que mensagens, rs.
A carta que mais gostei foi a primeira <3
Ótimo post!
Beijos!

www.livrosdajess.com

Jéssica Melo Says:
14 junho, 2015

Olá Maria, amei o sua postagem, ela foi bem original e as cartas são lindas *---*

Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

Francine Porfirio Says:
14 junho, 2015

ADOREI!
Que curiosidade interessante (e um pouco mórbida, no caso de Virgínia). Eu gosto de ver os escritos daquela época, quando os sentimentos eram intensos e sua descrição era tão rica. Amei as seleções. Bebezinho rabino? Haha. Certo... estranho, mas interessante.

Beijos!
http://www.myqueenside.blogspot.com

D e s s a Says:
14 junho, 2015

Adorei seu post, não conhecia as cartas, achei muito interessante, *-*
beijos
www.apenasumvicio.com

Kleiton Gonçalves Says:
15 junho, 2015

Ótima postagem, mesmo.
Ter acesso a uma carta que Dostoievski mandou à sua gata é demais.
Abraços!

Aline Gonçalves Says:
18 junho, 2015

Oie, tudo bom?
Como as cartas antigamente eram verdadeiras declarações de amor. Tinham entrega e poesia, algo que não conseguimos alcançar com os e-mails hoje em dia.
Beijos,
http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

Kris Oliveira - Conversas de Alcova Says:
18 junho, 2015

Porra Val, arrasasse na postagem.
Fiquei com os olhos cheios de lágrimas e carentona,
Quero um amor Romancista ou Poeta.
Eu não sabia que Henry e Anais eram um affair,
Adorei a carta dele pra ela.
Beijos

Jéss Winchester Says:
19 junho, 2015

Oii, tudo bem com você?
Gente, post mais romântico que esse não há, sorte delas por terem homens que escrevessem à elas desta maneira, quem não gostaria de receber declarações tão poéticas e lindas como estas? Eu gostaria muito.

Beijos da Jéss ♥
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De Bukowski a Dostoievski. Ana Cristina César a Lilian Farias. Deleite-se com a poesia de Florbela Espanca e o erotismo de Anaïs Nin...
Aforismos, devaneios, quotes dispersos e impressões literárias...um baú de antiguidades e pós-modernismo. O obscuro, complexo, distópico, inverso... O horror, o amor, a loucura e o veneno de uma alma em busca de liberdade...

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