Balzac em dois contos: A obra-prima ignorada e Um episódio durante o terror

| 17 junho 2015 | |
O grande Honoré de Balzac foi aniversariante mês passado e eu não queria deixar o momento passar em branco aqui no blog, por isso trago para vocês a resenha de um livro curtinho publicado ela Coleção 64 páginas, da L&PM Editores, trazendo dois contos desse autor que foi um grande representante da literatura francesa e mundial. 




A obra-prima ignorada trata da história de Nicolas Poussin, um jovem pintor parisiense que, ao visitar o atelier de seu mestre, se depara com um grande pintor discursando sobre a obra perfeita. Tanto Nicolas quanto seu mestre acabam extasiados com as belas palavras do misterioso pintor, bebendo da fonte de seus ensinamentos.

Ele esboça seus conhecimentos de maneira soberba, em como o artista pode conseguir pintar uma obra perfeita sem o uso das linhas e contornos. Engraçado que - à medida que eu lia, me sentia visualizando uma pintura sendo feita...

"Então retomei a minha obra e, usando semitons e glacis cuja transparência eu ia reduzindo mais e mais, reproduzi até as sombras mais intensas e os negros mais trabalhados, pois as sombras dos pintores comuns são de natureza diferente dos seus tons aclarados; são madeira, são bronze, seja lá o que for, tudo menos carne na sombra. Sente-se que, se a figura deles mudasse de posição, os lugares sombreados não se limpariam nem ficariam luminosos. Evitei esse defeito em que muitos dos mais ilustres caíram, e o meu branco se revela sob a opacidade da sombra mais pronunciada! Como uma porção de ignorantes, que acham que desenham direito só porque traçam linhas cuidadosamente precisas, não marquei rispidamente as bordas externas da minha figura, acentuando cada detalhe da anatomia, pois o corpo humano não acaba com linhas. Nisso, os escultores se aproximam melhor da verdade que nós.  [...] Rigorosamente falando, o desenho não existe! [...] A linha é o meio pelo qual o homem percebe o efeito da luz sobre os objetos, mas não existem linhas na natureza, na qual tudo é cheio: é modelando que se desenha, ou seja, quando se separa as coisas do meio em que elas se encontram, a distribuição a luz é que cria a aparência do corpo! De modo que não fixei os lineamentos, espalhei pelos contornos uma névoa de meias-tintas louras e quentes que fazem com que não se consiga apontar precisamente o lugar onde os contornos se encontram com os fundos."

Fascinado com a experiência do velho pintor misterioso, Poussin volta para casa com a cabeça envolta em conjecturas. Se encontra com sua amada e lhe questiona se ela posaria para outro, ela afirma que não, pois caso o fizesse, seria como atraiçoar-lhe, e mesmo quando ele argumenta que não, e ela muda de ideia, já sai da casa de seu amado com dúvidas quanto ao amor que sente por ele...

"Já estava se arrependendo de sua decisão. Contudo, em seguida, foi tomada por um pavor mais cruel do que o seu arrependimento; lutou para expulsar um pensamento terrível que se erguia em seu peito. Julgava já estar amando menos o pintor por desconfiar que ele era menos estimável."

À partir daí,  a história se adianta em três meses, com a visita de Porbus com o velho pintor Frenhofer. Esqueci de citar que apesar de descrever como criou sua obra perfeita, nunca a mostra a ninguém. Ele sente pela pintura uma paixão como se ela fosse ganhar vida. Sua musa Catherine jamais poderia se r contemplada em toda sua perfeição a outros olhos que não os seus. Quando Porbus, mestre de Poussin, insinua que ambos querem ver a pintura, em troca de Poussin oferecer sua amada para que Frenhofer a retrate, ele se recusa veementemente, com uma fúria arrebatadora...

"A minha pintura não é uma pintura, é um sentimento, uma paixão! Nasceu no meu ateliê, e nele tem de permanecer virgem, dele só pode sari vestida. A poesia e as mulheres que possuímos só se entregam nuas aos seus amantes!"
Porém, ao avistar a beleza de Gillette, ele muda de ideia e deixa que Poussin contemple a pintura Catherine...  Em seu íntimo, se animava em acreditar que sua pintura era mais bela que uma mulher de carne e osso. Chegando ao quarto onde estava a pintura tão venerada, é que os amigos percebem a que ponto vai a loucura de um pintor extasiado...

O segundo conto desse livro é intitulado Um episódio durante o terror. Um homem misterioso bate à porta de uma casa com duas freiras que estão escondidas junto com um padre, a fim de lhe pedir uma missa fúnebre, e mesmo desconfiadas, deixam o homem entrar e marcam a missa. Depois de um tempo ela é realizada e o homem promete voltar dentro de um ano. A história se passa durante a Revolução francesa, quando o rei Luis XVI foi guilhotinado... Com o passar dos dias começam a chegar provisões para o trio de religiosos, e eles atribuem esses benefícios ao homem que os visitou tempos atrás... Quando finalmente eles podem sair do esconderijo, depois de um tempo, sem o risco de serem presos, está ocorrendo um movimento estranho na cidade e então é revelada ao padre a identidade do homem que os ajudou... O desfecho dessa história surpreende o leitor, e por ser um conto curto, a tensão em saber o que acontece é ainda maior... Como eu disse, o final surpreende...

Recomendo a leitura de A obra-prima ignorada seguido de Um episódio durante o terror aqueles que nunca leram nada de Honoré De Balzac, pois seria uma proposta interessante aos iniciantes em sua literatura... ainda mais por se tratar de um livrinho tão curto, que pode ser lido em pouco mais de uma hora...

espero que tenham gostado da resenha, e até o próximo post... ^.~

16 Comentários:

Maniaca por livros Says:
17 junho, 2015

Vou fazer uma confissão: nunca tinha ouvido falar nem do autor, nem dos livros. Mas fiquei muito curiosa sobre a primeira história. Muito mesmo. Quero saber o que tinha no quadro, o nível de loucura ao qual o homem chegou.
Adorei a resenha.

Beijos!
Laury

Mariana Oliveira Says:
17 junho, 2015

Aw a obra prima ignorada parece ser muito boa! Me interessei mais por essa do que as demais <3

Leticia Says:
17 junho, 2015

Oi, tudo bem?
Ainda não tinha visto nem a obra, nem ouvido falar do autor.
Gostei bastante da obra, e ainda mais do segundo conto.
Gostei muito da resenha e daria uma chance ao livro.

livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br

Iany Tavares Says:
17 junho, 2015

Olá!! Nunca tinha ouvido sobre essa obra, mas me parece realmente muito legal! Vou dar uma chance ao livro e procurar mais sobre ele!!
Bjs
http://ameninaqueliaa.blogspot.com.br/

Gaby Cortez Harket Says:
17 junho, 2015

Olá :) Essa é a primeira resenha que leio sobre essas obras, que eu me lembre eu nunca tinha ouvido falar. :/
Nossa, gostei muitíssimo da proposta, achei o assunto muito instigante e diferente, fiquei com muita vontade e curiosidade de algum dia fazer a leitura. :D Através da sua resenha eu pude entender melhor as histórias relatadas nesses contos. ^^ Adorei!!! Beijos!
Blog: http://my-stories-wonderful-books.blogspot.com.br/
Página: https://www.facebook.com/BlogWonderfulBooks

Beatriz Andrade Says:
18 junho, 2015

OI, eu não conhecia e achei muito bacana, fiquei curiosa de poder ler também, não é o gênero que estou acostumada mas que me intrigou, valeu pela dica.

http://www.vocedebemcomaleitura.blogspot.com.br

Gleyse Vieira Says:
18 junho, 2015

Ola, vou te dizer que fiquei muito curiosa para saber o final dos contos. Apesar de não ser nenhum livro famoso e tal, é sempre bom conhecer esse tipo de obra, pois acaba nos surpreendendo. Adorei!!! Bjs

Território nº 6

Angélica Lima Says:
18 junho, 2015

Oi Valéria, tudo bem?
Não conhecia o autor, mas a dica está anotada para ler futuramente, fiquei bastante curiosa principalmente a respeito do desfecho do primeiro conto.
Bjs

A. Libri

Carol Kurras Says:
18 junho, 2015

Oi Valéria!
Confesso que nunca li nada deste autor, mas depois dessa super indicação, fiquei curiosa para conhecer um pouco mais destes contos. Com certeza vou procurar esse livro para ler em breve.
Beijos
Carol
www.sobrevicioselivros.com

Marijleite Says:
18 junho, 2015

Olá; ainda não conhecia o livro nem li nada do autor. Achei os dois contos bem interessantes, especialmente o primeiro.

Déborah Says:
18 junho, 2015

Oi, nunca li nada do Balzac, isso é bem vergonhoso.
Iria gostar muito de começar por esses contos, pois me pareceram muito bons.

Lisossomos

Jéssica Melo Says:
19 junho, 2015

Olá Maria, eu sempre vejo esse livrinho super curto e nunca compro, mas agora sabendo que os contos são bons e tem historia bem legais quando vê-lo novamente certamente vou compra-lo <3

Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

Jess Leite Says:
19 junho, 2015

Olá!
Não conhecia o autor, vê se pode! =[
Não sou muito de ler contos, mas adorei esses dois e vou seguir sua dica, começar por eles!
Adorei a resenha!
Beijos!

www.livrosdajess.com

Débora Costa Says:
19 junho, 2015

Eu não sou a maior fã de ler contos, então provavelmente não seria o livro pra mim, mas ainda assim acho que é um livro interessante de se colocar na estante,

http://laoliphant.com.br/

Maiara Vieira Says:
19 junho, 2015

Oi linda, tudo bem?
Não conhecia esse livro ainda e confesso que também não me interessei muito por essa obra!
Mesmo assim obrigada pela dica de leitura que é algo sempre válido!

Beijo :*
http://www.livrosesonhos.com/

Juliana Garcez Says:
19 junho, 2015

Oie! Tudo bem?!

Adorei a dica. Estou estudando francês e por isso busco história escrita por franceses ou que pelo menos sejam ambientadas na França. Obrigada!

Beijos,

Juliana Garcez | Livros e Flores

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