Shelley e sua Criatura... Frankenstein: um clássico da literatura de horror...

| 12 março 2015 | |

Hoje fazem exatos 197 anos que o livro Frankenstein, da autora Mary Shelley foi publicado. Em 1818, foi o ano em que essa obra-prima da literatura de horror universal surgiu, para meu delírio, claro... Minha edição é da Editora Martin Claret, gosto bastante dele, pois o comprei porque seria uma leitura para faculdade, numa cadeira eletiva, e também porque era louca pra conhecer a história...

Quem me conhece sabe que tenho certa 'quedinha' por criaturas/pessoas marginalizadas e/ou grotescas [Leia-se Quasímodo, O homem que ri, Freaks, e por aí vai...]. Então, resolvi fazer um trabalho de apresentação com a temática de monstros nessa cadeira eletiva que paguei, e em outra ocasião falarei disso, mas por hora vamos nos concentrar em Mary Shelley.

A história é sobre o dr. Frankenstein, que em sua sede de ambição, pretende dar vida a um corpo morto. Alucinado em suas pesquisas, se isola da família e vai morar num local afastado, onde começa a roubar pedaços de cadáveres no cemitério para formar o corpo da Criatura, costurando os pedaços. Por ironia do destino, sua experiência bizarra dá certo e logo ele se vê frente a frente com sua criação, uma criatura grotesca e monstruosa, cheia de remendos, e que aparentemente não tem inteligência. Desesperado e horrorizado com o que fez, o médico parte dali deixando para trás seu experimento. O problema é que o experimento' está confuso, se sente abandonado por seu Criador e resolve partir pelo mundo em sua procura, a fim de questionar-lhe sobre o motivo de ter sido deixado para trás...

Durante seu percurso, a Criatura [que erroneamente chamam de Frankenstein quando na verdade esse é o sobrenome de Victor, o médico - e ele próprio não possui um nome, sendo mencionado em todo o livro como simplesmente 'a Criatura'], vai se deparando com o mundo inteiro e toda a beleza e crueldade que existem nele. As pessoas que o veem fogem assustadas. Ele se indaga sobre o porquê de afugentar as pessoas, já que não faz mal nenhum pra elas. Numa dessas paragens, passa um tempo numa casa onde há um cego, que parece ser o único amigo que ele encontra durante a viagem. Ele aprende a ler, e entre as obras que lhe chegam às mãos, está o livro Paraíso perdido, de John Milton. Seria uma espécie de alusão à Criação e Criador... Crítica de cunho religioso sobre a criação do homem e sua 'queda'.

Durante a jornada em busca de Victor, infelizmente a Criatura acaba perdendo sua 'bondade' e vai sucumbindo à tristeza e raiva de ter sido rejeitado. Então ele resolve se vingar de seu Criador, matando todos a quem ele ama... Ele não poupa nem crianças... 

A narrativa se dá através de cartas que são escritas por um capitão chamado Robert Walton que descobre a história quando está a bordo de seu navio rumo ao pólo norte e seus homens avistam a Criatura num trenó. Pouco depois ele encontra num bote o dr. Frankenstein, que passa a lhe contar sobre o infortúnio que se abateu em sua vida e família desde que criou o monstro e ele se vingou matando os seus parentes... Então o capitão escreve à irmã contando toda a história...

Um fato interessante sobre o livro é a maneira como Shelley fazia críticas a sociedade em sua época. A própria questão da criação, quando o cientista tenta ser 'Deus' e pretende dar vida a algo morto, é parte desse processo de crítica. Na época em que foi lançado, o mundo se encontrava em processo de modernização, a ciência ganhava mais adeptos e descobertas foram feitas. Tudo em nome do progresso. A ética também é descrita na obra; um exemplo bem claro é na morte do irmão de Victor, em que a empregada que cuidava do menino é acusada da morte dele, e mesmo Victor sabendo de sua inocência, deixa a pobre mulher ser condenada à morte, pois sabia que se descobrissem que foi o monstro que ele criou que cometeu o crime, ele é quem seria punido. Ele preferiu ver uma inocente pagar por seu ato irresponsável, a fim de se safar da pena. 



Ao longo do tempo, a Criatura ganha 'experiência' e discernimento. E quando finalmente consegue alcançar o doutor, exige que ele faça uma companheira pra ele, a fim de suportar melhor a solidão, em virtude de ninguém querer sua companhia. A Criatura sofre com o peso de ser diferente' dos demais seres, ela é marginalizada pelo mundo por sua aparência que não se enquadrava nos 'moldes adequados'. Isso nos coloca em reflexão, sobre nós mesmos, e em quantas vezes somos desprezados e rejeitados por ter um pensamento, ideal ou aparência que não se encaixam naquilo que é considerado perfeito. Por último, mas não menos importante, percebam na leitura de narrativa maravilhosa - diga-se de passagem - o aspecto da dualidade e do ser que se corrompe ao conhecer o pior que a natureza tem a nos oferecer. A transição do monstro se tornando um ser possuidor de pensamentos vis e aterrorizantes, e em que aspectos essa condição lhe foi gerada - o mal do mundo converteu a Criatura, transformando-a realmente num monstro assassino, quando antes era um ser bom, apesar de grotesco... é sobre a queda do indivíduo.

Existem várias adaptações do livro para o cinema, e a mais famosa é a que Boris Karloff dá vida ao personagem monstro. Posteriormente deram uma companheira para ele, num filme chamado A noiva de Frankenstein. 



Em suma, o livro faz com que analisemos diversos aspectos diferentes e que podemos encaixar em nosso próprio cotidiano. Quem nunca se sentiu em algum momento como a Criatura de Frankenstein que atire a primeira pedra...



Mary Shelley era filha do poeta William Godwin e casou-se com Percy Shelley, tendo criado a história numa noite de tempestade, num encontro com seus amigos, entre eles o poeta Lord Byron... O que era pra ser apenas um conto criado numa simples brincadeira, se tornou um clássico da literatura mundial, e um clássico indispensável na lista de livros para se ler antes de morrer, de qualquer leitor que se preze... 

Até a próxima, pessoal. Espero que tenham curtido a resenha... 

17 Comentários:

janaina silva Says:
13 março, 2015

Ola maria valeria!que interessante isso, eu sempre ouvi falar do livro e até cheguei a ver uns pedaços do filme mas nunca me interessei por ele e nem nunca tinha visto ninguém falar dele com tanto carinho, você me fez simpatizar com Frankenstein e sinto que essa agora se tornou uma leitura quase que obrigatária, obrigada por pela dica.

BEIJOSSsss...

http://sonhosdeleitor.blogspot.com.br/

Mariana Oliveira Says:
13 março, 2015

Ah! Acho que todo mundo conhece a história de Frankenstein, pelo menos superficialmente. Ele é citado desde cedo. Lembro de ouvir sobre quando era muito pequena. Mas nunca parei para ler o livro assim, tampouco tenho vontade, mas acho legal conhecer a história original de tudo que é criado hoje em dia.

Josielma Ramos Says:
13 março, 2015

Essa obra é de fato fantástica, assisti mil adaptações para o cinema, mas nunca li livro, infelizmente,
mas está na minha lista de livros para ler antes de morrer rsrs.
Fiquei feliz em saber que a autora é filha de William Goldwin, conheço algumas obras dele, tai um fato que eu não sabia rsrs.
Beijos e amei o post, muito bem estruturado.

Lilian Farias Says:
13 março, 2015

Livro bom, dá para fazer uma análise psicológica do personagem bem profunda sobre arquétipos.
http://poesianaalmaliteraria.blogspot.com.br/

Lunna Marcela Says:
13 março, 2015

Olá, gostei muito da sua resenha principalmente porque apresenta o personagem sob diversas óticas em variadas interpretações advindas da mesma obra . parabéns pela resenha bjs

Maria Valéria Says:
13 março, 2015

que bom que gostou ^^
obrigada.

Maria Valéria Says:
13 março, 2015

verdade :D

Maria Valéria Says:
13 março, 2015

mulher, não sabe o que tá perdendo. A história é maravilhosa *-*
Ao menos veja algum filme xD
bjs

Maria Valéria Says:
13 março, 2015

ah, eu sou apaixonada pela Criatura hahaha ♥ por isso o carinho ao falar do bichinho rsrsrs

Maria Valéria Says:
13 março, 2015

espero que possa ler, creio que vai amar a história :D

Luciano Vellasco Says:
13 março, 2015

Ainda quero ler *-*
Parece ser um ótimo livro de terror. Ainda mais sendo ele uma das criaturas mais ícones de gênero.
Parabéns pela resenha.
Beijos

Academia Literária DF

Anônimo Says:
25 abril, 2016

Frankenstein não é um livro de terror... Ele pode ser um suspense, mas na verdade ele é uma fiçcão científica.

Maria Valéria Says:
26 abril, 2016

Existe diferença entre Terror e Horror, ainda que sutil. Em momento algum do texto coloquei o termo TERROR. Uma simples googlada poderia explicar a você a diferença...
Terror seria o sentimento de medo e Horror seria o sentimento de repulsa que vem após se presenciar algo assustador. Horror se relaciona ao estado de choque enquanto o terror está mais relacionado à ansiedade ou medo. Ambos estão ligados ao gênero fantástico e ficcional. Sendo assim, minha colocação em chamar a obra Frankenstein de Horror não é equivocada.
Sem contar que foi escrito num período em que o Romantismo despontava, e pode ser classificado também como romance de horror gótico.

;*

Anônimo Says:
30 abril, 2016

Frankenstein é o primeiro livro de ficção científica, com pitadas de drama, além de ser um romance tipicamente gótico. Mas depende da ficção científica devido à forma com que Victor anima a criatura através do galvanismo e de todos os conflitos internos de Victor sobre os limites da ciência.

Não há problema de sub-gêneros serem permeáveis, ao contrário, isso enriquece a literatura.

Uma simples googlada poderia explicar a você a diferença...

Anônimo Says:
30 abril, 2016

Existe a ficção especulativa, que é um grande guarda-chuva, e embaixo dela todos os gêneros que conhecemos como fantasia, horror, ficção científica, new weird, fantasia urbana, etc..

MAAAAAS "Uma simples googlada poderia explicar a você a DiFEreNÇa..."

Maria Valéria Says:
01 maio, 2016

cara pessoa anônima [que já desconfio quem seja pela presunção e 'afetação'], crie um blog, mostre a cara e o nome e resenhe Frankenstein.
simples.

Maria Valéria Says:
01 maio, 2016

e certamente com tamanha inteligência e erudição, aproveite para postar seus artigos científicos acerca do tema. Iria adora ler, e obviamente devem ter aos montes no google, apesar de eu não encontrar nada referente a sua perspicácia nele.

Postar um comentário

De Bukowski a Dostoievski. Ana Cristina César a Lilian Farias. Deleite-se com a poesia de Florbela Espanca e o erotismo de Anaïs Nin...
Aforismos, devaneios, quotes dispersos e impressões literárias...um baú de antiguidades e pós-modernismo. O obscuro, complexo, distópico, inverso... O horror, o amor, a loucura e o veneno de uma alma em busca de liberdade...

Seja bem-indo-e-vindo[a]!

╬† Literatura no Mundo ╬†

╬† Autores ╬†

agatha christie Alan Dean Foster Alan Moore Álvares de Azevedo Ana Cristina César Anaïs Nin Anna Akhmatova Anne Rice Anne Sexton Antônio Xerxenesky Arthur Rimbaud Bob Dylan Bram Stoker Cacaso Caio f. Abreu Cecília Meireles Charles Baudelaire charles bukowski Charles Dickens chuck palahniuk Clarice Lispector clive barker Cruz e Sousa dalton trevisan David Seltzer Dik Browne Don Winslow edgar allan poe Eduardo Galeano Emily Brontë Ernest Hemingway Eurípedes F. Scott Fitzgerald Ferreira Gullar Florbela Espanca Franz Kafka Garth Ennis George R. R. Martin Gilberto Freyre Guido Crepax H. G. Wells H. P. Lovecraft Haruki Murakami Henry James Herman Hesse Herman Melville Hilda Hilst honoré de balzac Horacio Quiroga Hunter S. Thompson Ignácio de Loyola Brandão isaac asimov Ivan Turgueniev J. R. R. Tolkien Jack Kerouac Jack London Jay Anson João Ubaldo Ribeiro Joe Sacco Jon Krakauer Jorge Luis Borges José Mauro de Vasconcelos Julio Verne Konstantinos Kaváfis L. Frank Baum Laura Esquivel Leon Tolstói Lord Byron Luciana Hidalgo Luiz Ruffato Lygia Fagundes Telles manoel de barros Marcelo Rubens Paiva Mario Benedetti Mark Twain Marquês de Sade Martha Medeiros Mary Shelley Michel Laub Miguel de Cervantes Milo Manara Moacyr Scliar Neil Gaiman Nelson Rodrigues Nicolai Gógol Oscar Wilde Pablo Neruda Patti Smith Paulo Leminski Pedro Juán Gutierrez Rachel de Queiroz Rainer Maria Rilke Ray Bradbury Robert Bloch Robert Kirkman robert louis stevenson Roberto Beltrão Rubem Alves Sándor Márai Sófocles Stephen King Stieg Larsson Susan E. Hinton Sylvia Plath Torquato Neto Victor Hugo Virginia Woolf William S. Burroughs Ziraldo
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...
Witches Hat
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...