Perdas e Danos, de Josephine Hart

| 09 fevereiro 2015 | |
"Eu abrira uma porta para uma câmara secreta. Seus tesouros eram imensos, seu preço seria terrível. Sabia que todas as defesas que havia construído com tanto cuidado eram fortificações e trincheiras construídas sobre a areia. Não tendo conhecimento de nenhum outro caminho, minha jornada através dos anos fora feita buscando e abraçando os marcos e limites da normalidade.Será que eu sempre soube da existência desta alcova secreta? seria o meu pecado, em princípio, a falsidade? Ou, mais provavelmente, a covardia? Mas o mentiroso conhece a verdade. O covarde conhece seu medo e foge.E se eu não tivesse conhecido Anna? Ah, quanto não teria sido poupado àqueles que sofreram tamanha devastação por intermédio de minha mão!Mas conheci Anna. E tive que fazê-lo, e abrir aquela porta. E entrar na minha câmara secreta. Queria sentir a minha passagem pela terra, agora que já ouvira a canção que canta da cabeça aos pés; e experimentara a selvageria impetuosa que arrasta, rodopiando, os dançarinos para longe dos olhares chocados dos telespectadores; descera cada vez mais fundo e subira cada vez mais alto no interior de uma realidade singular - a explosão estonteante do ego.[...]Começar a existir através da mão de uma outra pessoa - como eu pela mão de Anna - tem como conseqüência estranhas e inimagináveis necessidades. Respirar se torna mais difícil na ausência dela. Eu sentia, literalmente, que estava nascendo. E porque o nascimento é, por natureza, violento, nunca procurei e tampouco encontrei gentileza. Os limites externos de nossa existência são alcançados através da violência. A dor se transforma em êxtase. Um olhar se transforma numa ameaça. Um desafio íntimo, mais profundo do que olhares ou palavras, que só Anna e eu poderíamos compreender, nos arrastou, fazendo com que continuássemos, seduzidos pelo poder de criar nosso magnífico universo particular..."




Recentemente li Perdas e Danos, de Josephine Hart e confesso que essa obra me despertou a atenção porque a capa me lembrou muito Último Tango em Paris, e apesar de serem histórias diferentes, ela se revelou igualmente trágica, intensa e avassaladora. Bem o tipo de livro que gosto... Publicado pela Editora Record, Perdas e Danos conta a história de Stephen Flemming, um respeitado homem pertencente à nata da sociedade, que faz parte do Parlamento britânico. Narrado em primeira pessoa, ele conta a trajetória de sua vida, como conheceu sua atual esposa, teve seus dois filhos e sobre Anna, que entrou de forma inesperada em sua vida, trazendo com ela paixão, sexo, perigo e destruição.

Anna é a nova namorada de seu filho, e rapidamente explode uma paixão entre nora e sogro, o que seria um escândalo caso fossem descobertos. Anna é misteriosa, não fala muito sobre sua família ou passado, mas Stephen descobre aos poucos sobre a vida da mulher que está prestes a se tornar esposa de seu filho Martyn. Stephen narra com detalhes a sua vida insossa e 'ideal' aos olhos da sociedade, pois tem um cargo respeitado, filhos perfeitos, uma mulher bonita e elegante, mas tudo isso fica em segundo plano quando ele se envolve com Anna. Ela trouxe cor à sua vida até então cheia de mesmice. Apesar de se sentir culpado em alguns momentos, ele deseja ardentemente sua nora e tenta suprimir o ciúme de vê-la com Martyn. A esposa parece não suspeitar de nada, na verdade, ninguém sabe sobre a relação dos dois, apesar do padrasto de Anna aconselhar Stephen a desistir daquela loucura, porque ele conhece a enteada e sabe que aquela história pode acabar em tragédia...

Existe uma adaptação para o cinema, trazendo Jeremy Irons no papel de Flemming e Juliette Binoche como Anna Barton. Até então, eu não conhecia a autora e posso dizer que a primeira impressão que ficou é de que ela escreve com maestria. Por ser em primeira pessoa, senti durante a leitura que estava conversando com o personagem num balcão de bar, em que ele me contava toda a sua história, regada a doses de Whisky [sim, minha imaginação é fértil]. Não sei ao certo em que época a história foi ambientada, mas creio ser algo desnecessário situá-la em alguma década, mas provavelmente, entre os anos 60 e 80...


"Uma folha caiu lentamente sobre a terra, como uma gigantesca lágrima verde. Eu não tinha lágrimas a derramar. Apalpei meu corpo, tocando os braços e o peito. Esta coisa terá que ter um abrigo em algum lugar até estar finalmente pronta para ser enterrada. Tenho que [...] viver, continuar vivendo. Mas precisaria de alguma espécie de caixão."


A trama carrega em si mesma todo um histórico de tragédias no passado de Anna. Um suicídio marcou sua adolescência. Um relacionamento antigo vindo à tona. Anna é fria, é a 'razão' do casal, pois Stephen age com paixão e desespero. O seu emocional é mais carregado... Por Anna, Stephen chega ao ápice e sofre uma queda em toda sua vida. A morte leva alguém de sua família, sobra apenas o sentimento de remorso, derrota, o fim de sua carreira... mas ainda assim, em vários momentos, tudo o que ele deseja é 'Anna'.  

"tudo o que resta de uma vida que você amou é um corpo a ser enterrado."
Para aqueles que gostam de histórias regadas a amores proibidos e tempestuosos, com pitadas de sexo e finais trágicos, eis uma boa pedida...


5 Comentários:

Mariana Oliveira Says:
09 fevereiro, 2015

Que isso! Não gosto desse tipo de história, fico pensando se fosse ao contrário e acontecendo comigo, que triste!
Não, não, não e não, hahaha!

Renata. Says:
10 fevereiro, 2015

AI.MEU.DEUS HAHAHAHA esse livro parece ser aqueles que te deixa roendo dos dedos de aflição por saber que a coisa não vai acabar bem /o\ Fiquei curiosa, mas não tenho coragem de ler hahahaha Especialmente pela observação no final ali de que o fim é trágico... mas agora estou curiosa demais hahahaha Ok, vou respirar fundo e ver se eu encontro em ebook ;x

Renata,
psychoreader.wordpress.com

Kris Oliveira - Conversas de Alcova Says:
10 fevereiro, 2015

Val, eu não conhecia o livro.
Parece ser aquelas histórias de tirar o fôlego, e que daria um belo filme.
Fiquei intrigada e morta de vontade de lê-lo. Beijos

Carissa Vieira Says:
20 fevereiro, 2015

Já vi o filme e não sabia que existia um livro. Agora quero ler.
O trecho que você colocou aí em cima é bem interessante. Acho que vou gostar da leitura tanto quanto você.

Beijos

Cláudio Says:
11 março, 2015

O filme é quase tão bom e intenso quanto o livro.Quase mesmo.Causou,inclusive,muita polêmica ao ser lançado.

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