Resenha do mês [Setembro] - O meu pé de laranja lima

| 01 outubro 2014 | |
E na reta final do mês de setembro, eu achava que não leria uma obra melhor que A morte de Ivan Ilitch, um clássico russo de Tolstói, que li no começo do mês. Mas aí me veio a vontade de pegar o recém-adquirido O meu pé de laranja lima, de José Mauro de Vasconcelos, comprado em um sebo por apenas cinco reais. Sabia que tinha uma adaptação em filme, novela de televisão, mas não fazia idéia do que tratava a história. 

Então resolvi conhecer as aventuras que o pequeno Zezé, de apenas 5 anos quis me mostrar... Zezé é um menino muito traquina, que volta e meia leva uma sova pelas suas peraltices. De família muito pobre, ele tem uma irmã que sempre o protege das surras, Glória, seu pai está desempregado e sua mãe trabalha o dia inteiro numa fábrica, como operária. Numa noite de natal, Zezé fica triste porque não ganha nem um presentinho, mas como a família é pobre demais, não poderia comprar nada pra ele nem para seus irmãos. Ele tem um irmão caçula chamado Luís, a quem chama de rei, pois ele tem nome de um rei. 

Por ser muito travesso e esperto, Zezé acaba aprendendo a ler muito rápido, sem a ajuda de ninguém. Seu tio Edmundo acha que ele deveria estar na escola, então a família o matricula como se ele tivesse seis anos. Na escola, ele tem afeição por dona Cecília, sua professora, que gosta do menino mesmo sabendo que em casa ele é um pestinha. A rua onde Zezé mora conhece sua fama de menino que apronta todas, e quando sua família muda de uma rua pra outra, ele ganha uma árvore no quintal, um pé de laranja lima. No começo ele não gosta muito da árvore, mas logo vê nela um amigo, e lhe dá o nome de Minguinho. Os animais do quintal ganham nomes, e Zezé fantasia várias aventuras com amigos imaginários e seu pé de laranja. 


Numa de suas tantas traquinagens, leva umas palmadas de Manuel Valadares, um portuga do bairro. Mas o destino brinca com Zezé e eles se tornam muito amigos, mas por vergonha de ter apanhado dele não conta pra ninguém sobre essa amizade. O portuga tem muito amor pelo menino, e volta e meia o leva pra comer um lanche e passear em seu carro. Além desse amigo, temos o Seu Ariovaldo, que sai com Zezé pra cantar na rua e ganhar uns trocados. Zezé também engraxa sapatos para ajudar na renda da família. Pela pobreza de seus pais, o menino se lamenta bastante por não poder ganhar um presente de natal, e acha que é porque não se comporta durante o ano, e sendo assim, Deus lhe castiga. 

Bem, eu poderia ficar contando sobre o livro inteiro até o seu desfecho, mas preciso colocar alguns fatores da obra em pauta. Uma das coisas que mais me encantaram foi que a inteligência de Zezé é acompanhada de extrema curiosidade das coisas do mundo. Sua inocência em meio a um ambiente adulto sofrido e cheio de problemas, em que ele vive apanhando por ter aprontado alguma me cativou de forma impressionante. Em um dos trechos [que logo identifiquei como um dos textos que li na infância nos livros didáticos de português] foi quando a professora de Zezé descobre que as flores que ele levava para ela eram roubadas. Com muita naturalidade ele confessa que realmente furtava as flores, e com a mesma naturalidade explica o porquê. Ele é tão 'puro', apesar de travesso, que não percebe que roubar é um ato feio em si, seja lá de que forma for. A professora diz pra ele que se ele não roubar mais, ela vai fingir que sempre haverá uma flor no vaso, mesmo não havendo nenhuma. E ela diz pra ele que aquela rosa será a mais linda do mundo pra ela. Isso deixa o menino satisfeito.

Outro ponto que me deixou com um nó na garganta foi quando ele fala para a própria mãe, depois de uma surra que o deixou todo machucado, que nao deveria ter nascido porque é uma criança ruim. Na mente dele, ele é uma pessoa ruim e por esse motivo é que apanha tanto. Numa das queixas que faz ao seu amigo Portuga, ele se despede dele, dizendo que essa última surra que levou foi injusta demais, porque ele vinha se comportando. Com raiva de seu pai ele resolve matá-lo [como havia dito sobre o portuga quando ainda eram 'inimigos']. 

"Matar não quer dizer a gente pegar o revólver de Buck Jones e fazer bum! Não é isso. A gente mata no coração. Vai deixando de querer bem. E um dia a pessoa morreu." [Buck Jones é um de seus personagens nas brincadeiras pelo quintal de casa]

Logo depois, em um dos trechos mais tocantes:

Eu vim dizer adeus para você.

- Adeus?
- Sério. Você vê, eu não presto para nada, estou cansado de sofrer pancada e puxões de orelha. Vou deixar de ser uma boca a mais...
Comecei a sentir um nó doloroso na garganta. Precisava muito de coragem para contar o resto.
- Vais fugir então?
- Não. Eu passei essa semana toda pensando nisso. Hoje de noite eu vou me atirar debaixo do Mangaratiba..
Ele nem falou. Me apertou fortemente nos braços e me confortou do jeito que só ele sabia fazer." 

Esse diálogo é com Manuel Valadares, o Portuga. E o Mangaratiba é um trem que passa pelo bairro. E Zezé tem apenas SEIS anos. Notaram o quão forte é a coisa?

Ele sente um apreço pelo Portuga que não tem pelo próprio pai, já que é um dos que vive lhe batendo. Em uma parte do livro, ele pede para que o Portuga lhe compre.

"Se não quiserem dar, você me compra. Papai está sem dinheiro nenhum. Garanto que ele me vende. Se pedir muito caro, você pode me comprar a prestações, do jeito que seu Jacob vende..." 

Para Zezé, as coisas podem ser resolvidas de maneira muito simples, sua alma de criança não enxerga maldade em suas soluções, como se fossem a coisa mais natural do mundo. Mas aí, ele recebe uma notícia terrível sobre o futuro do seu pé de laranja lima, e em cima disso, um golpe do destino faz com que ele deseje morrer, passando muito tempo numa cama, as pessoas creditam sua condição ao pé de laranja, sem nem desconfiar que ele sofre por seu amigo Portuga... 

Mas quis o destino que Zezé levantasse da cama, e vivesse...

"- Já cortaram, Papai, faz mais de uma semana que cortaram o meu pé de laranja lima." 

O pai não compreende a metáfora...

O capítulo final me fez desabar no choro de vez. Anos já haviam passado, Zezé não mais imaginava sua árvore falando, nem seus animais conversando e brincando com ele. A inocência da criança fora perdida. Já adulto, ele relembra com saudade de seu amigo Portuga. A maior lição que seu amigo deixou, foi a ternura que o menino levado praticamente não teve em casa. E essa ternura, Zezé levaria para sempre no peito... 

6 Comentários:

Eykler Simone da Mota Daniel Says:
01 outubro, 2014

Oá Maria Valéria! Que resenha fantástica, tão completa e ão cheia de vida que parece que estamos lendo o livro e é possível até visualizar que você descreve. Eu gosto muito de livros que quando a gente pega temos a impressão que ninguém lê mesmo endo o livro nesse caso um clássico da literatura. Parabéns pela resenha e pelo blog.
Bjs
Eykler

www.aghridoce.blogspot.com.br

Amanda Vieira Says:
01 outubro, 2014

Minha mãe é louca por esse livro. Eu nunca li. Acho que nem vou ler tão cedo, que não to podendo com essas tristezas.
Tua resenha ficou incrível, deu vontade de saber pq esse menino quer se jogar no trilho do trem...

Maria Valéria Says:
02 outubro, 2014

leia, então. Você vai adorar. :D

Maria Valéria Says:
02 outubro, 2014

oh, fico feliz que tenha gostado ^^
quando eu curto muito o livro, acabo me empolgando e escrevendo muuuuito hahahaha
bjs ^^

Caroline Porto Says:
02 outubro, 2014

Já ouvi falar sobre esse livro e me disseram também que era muito triste.. mas não sabia dessa personalidade do personagem e nem que ele sofria tanto assim :( Mesmo assim dizem ser um ótimo livro. Eu não sei se teria coragem de ler porque sou muito chorona mas enfim.. parabéns pela resenha, fiquei super curiosa para ler essa obra, mesmo sabendo que vou chorar horrores rs.

Blog Mutações Faíscantes da Porto

Maria Valéria Says:
02 outubro, 2014

olha, vai chorar mesmo viu... se vc for sensível como eu... oshi xD
mas vale a pena ser lido, traz uma reflexão linda...
bjs, flor ^^

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