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"Deixai toda esperança, ó vós que entrais!" Inferno. A divina Comédia [Dante Alighieri]

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O cotidiano decadente de Havana na obra de Gutiérrez - O insaciável homem-aranha

Quem me conhece sabe que gosto de uma narrativa suja, degradante, que aborde o cotidiano infeliz do personagem de maneira desesperançada e resignada, mas sem perder o sarcasmo e bom-humor, bem no estilo Bukowskiano de ser. Então, não é surpresa que, ao ler O insaciável homem-aranha [calma, nada a ver com o super herói do quadrinho], do autor Pedro Juan Gutiérrez [já falei dele aqui], fosse ficar excitada com o livro. 

Publicado pela Ed. Companhia das Letras, o livro é uma viagem quase autobiográfica ao universo do narrador/autor, que se utiliza de contos para discorrer sobre sua rotina em um lugar cheio de miséria e pobreza, em Cuba. Personagens que só pensam em sexo e bebidas, em meio a falta de oportunidades num país que vive numa eterna ditadura, em que não há dinheiro suficiente pra se comprar carne para comer, e em que o protagonista precisa se apertar em uma multidão para conseguir ossos e "aparas" a fim de garantir a sopa da noite, tudo isso mesclado a sujeira dos becos imundos de Havana, de 'inferninhos' e botecos frequentados pelos tipos mais escabrosos, que tornam a obra um deleite para o leitor que gosta desse tipo de literatura beirando o subversivo.


A história se passa nos primeiros anos do século XXI, e Havana se revela um cenário decadente, propício ao que Gutiérrez pretende descrever. O primeiro conto narra um acontecimento sórdido [leia-se muito sórdido] ocorrido com uma mulher, numa praça deserta em Nova York. No capítulo seguinte, conhecemos Julia, a companheira do narrador, e que aparece nos capítulos/contos subsequentes. A relação entre o casal é morna, perdeu há muito o viço, e volta e meia o protagonista se depara com outras mulheres, em diversas situações sexuais, todas elas contadas de forma despretensiosa e ao mesmo tempo, ousadas. 

"O casamento destrói tudo. Ou eu destruo tudo. Não sei." 

A convivência com os vizinhos, com turistas que aparecem eventualmente em seu caminho, com sua mãe e [poucos] amigos, são retratos da realidade que permeia a cidade, e por vezes o leitor pode se imaginar vivendo nessa atmosfera sufocante regada a cerveja e rum baratas em festas de fim de noite [isso quando a polícia não fecha o local quando o relógio bate meia-noite...]. As calçadas escuras estão apinhadas de casais transando, hétero ou gays, voyeurs se masturbando ao espiar os encontros fortuitos do protagonista com suas amantes. Sombras dançando em meio à escuridão desses locais infectos e ao mesmo tempo excitantes.

E em meio a tudo isso, nosso narrador escreve, e sempre se depara com situações a serem postas no papel. Faz de seu cotidiano uma espécie de diário, e leva o leitor a conhecê-lo de forma mais íntima. 

"Talvez isso tenha me salvado: as bebedeiras, as mulheres, soltar a fúria, mandar tudo à merda, não esperar nada de ninguém. E escrever. Nas madrugadas, bêbado, escrevia contos de tudo o que me acontecia. Era muito divertido. E continuarei. E aqui estou."



Pedro Juan é um escritor cubano, e tem 6 títulos publicados. Entre eles, Trilogia suja de Havana, que já resenhei antes e foi meu primeiro livro lido dele. Foi amor a primeira vista. Costumo me referir ao escritor como o 'Bukowski' cubano, pois sua prosa é deliciosa de se ler, bem no estilo do velho Buk, sujo, depravado e com uma carga de realidade amargurada com pitadas de sarcasmo. Então, recomendo que não deixem de conhecer a 'subversão-literária-sexual-decadente-de-Cuba' nas obras de Pedro Juan Gutiérrez, um cara que foi soldado, cortador de cana, jornalista e hoje vive de escrita e pintura. 

6 Comentários:

Bia_rubens

adorei tua resenha, o mais legal é que não é um livro que muitas pessoas conheçam... jah tinha ouvido falar vagamente do autor, mas não conhecia sua obra, vai pra minha lista de desejados já

HONORATO, Sandro

Boa tarde,
Acho bacana mesmo você trazer livros diferentes e resenha-los com a Bia comentou.
Nunca tinha ouvido nem falar do autor :(

Beijos e se cuida

Italo S

Oi, Val, como vai?
Não sei se tô enganado, mas esse livro me lembra um pouco do Kerouac, então, tipo, não seria o livro que eu fosse ser fãããã, rsrs

http://incriativos.blogspot.com.br/2014/06/sorteio-de-um-exemplar-de-desafiando-o.html

Val Strange...

pois é, só conheci esse autor por causa de um professor meu da faculdade. Foi amor a primeira lida rsrs ^^
que bom que gostou.
bjs.

Val Strange...

muito obrigada por seu comentário, moço. Fico feliz que os livros que trago pra cá possam ser interessantes pra vocês, leitores do blog.
abração ^^

Val Strange...

bom, eu não acho a escrita de Gutiérrez parecida com a de Kerouac, lembra um pouco Bukowski. [Se bem que acho algumas coisas de Buk com pegada beat, mas nada muito intenso]. Mas enfim... é uma ótima leitura, espero que um dia vc mude de idéia e leia rsrs
bjs ^^

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De Bukowski a Dostoievski. Ana Cristina César a Lilian Farias. Deleite-se com a poesia de Florbela Espanca e o erotismo de Anaïs Nin...
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