Ópio, haxixe e Baudelaire...

| 11 abril 2014 | |


"Essa fantasmagoria, por mais bela e poética que parecesse, vinha acompanhada de uma angústia profunda e de negra melancolia. Parecia-lhe, a cada noite, que descia indefinidamente em abismos sem luz, para além de qualquer profundidade conhecida, sem esperança de poder sair. Mesmo depois de despertar, persistia uma tristeza, uma desesperança vizinha do aniquilamento." 
Um comedor de ópio. 





Charles-Pierre Baudelaire, ou simplesmente Baudelaire, nasceu na capital francesa no ano de 1821, em 9 de Abril, no número 13 da rua de Hautefeuille. Seu pai [Joseph-François]  era bem mais velho que sua mãe, e com apenas seis anos ele fica órfão dele. A mãe acaba se casando novamente depois de um tempo com um major, chamado Jacques Aupick. 

O jovem poeta acaba de desentendendo com a família e vai morar sozinho, nesse período começa a escrever ensaios poéticos e colabora como anônimo num jornal satírico da época, chamado Corsaire-Satan. Vivendo sozinho, acaba se envolvendo com uma judia que se prostituía no Quartier Latin. Faz algumas viagens para fora da Europa e quando retorna, reclama sua herança, mas acaba por gastá-la de forma indevida. Se envolve com outra prostituta, faz amizade com Balzac, Gautier e outras figuras célebres francesas. Dilapidando sua herança, acaba sendo declarado incapaz pela Justiça, tendo ficado sob tutela de um curador, que iria administrar seu dinheiro. 

Em 1845 é publicado seu primeiro ensaio de crítica, intitulado Saison. Em várias revistas são publicados poemas que viriam a se tornar um compilado chamado As flores do Mal, sua mais conhecida obra. Em 1848 começa a traduzir os contos de Edgar Allan Poe para o francês. Tendo incontáveis dívidas, acaba se mudando com freqüência, a fim de se livrar de seus credores. Se envolve com mais mulheres, publica uma série de dezoito poesias de As flores do mal e em 1858, publica a primeira tradução de Histórias Extraordinárias, de Poe. As flores do mal foi criticado por ser considerado obsceno. Nesse ínterim, seu padrasto falece e ele se reaproxima de sua mãe. Seu contato com tantas prostitutas ao longo da vida lhe rendera uma sífilis, contraída ainda na juventude e que Baudelaire começou a tratar com ópio e éter

Em suas andanças pela Bélgica, surgem Pauvre Belgique e Amoenitates belgicae. Retorna para a França, mas suas finanças o forçam a voltar para a Bélgica. Enquanto isso, a sífilis se agravava. No dia 15 de março de 1866, ele passa mal e cai no chão da igreja de Saint-Loup, vítima de um ataque de paralisia, apresentando sintomas de afasia. Em 2 de julho do mesmo ano sua mãe o remove para Paris, onde o interna numa clínica. Mas é tarde demais, pois não há tratamento que impeça o inevitável... a paralisia progride de forma assustadora e ele perde também a fala, e ele ainda permanecia lúcido quando isso aconteceu... 


No dia 31 de agosto do ano seguinte, Baudelaire falece em plena agonia nos braços de sua mãe, Caroline Archimbaut-Dufays, aos 46 anos. Seus escritos foram em sua maioria, publicados em revistas e jornais. Alguns, inclusive, nunca chegaram a ser publicados. Mas podemos destacar entre suas obras Les Fleurs du Mal, Les Paradis artificiels e Les Epaves, além das traduções da obra de Poe. 

Sua obra é carregada de melancolia e revela muito de sua vida regada a vinho, drogas e mulheres. Baudelaire é o que podemos chamar de poeta boêmio. Seus poemas revolucionaram a literatura francesa. Possuo três de seus livros em minha Estante: As flores do Mal, e mais dois intitulados O poema do Haxixe e Um comedor de ópio. Ambos fazem parte da obra Paraísos Artificiais, que foi publicado postumamente, em 1891, junto com outros ensaios sobre o vinho e o haxixe. Baudelaire acreditava que, além de anestesiar suas dores por conta da doença, o ópio expandia sua percepção mental, estimulava o sonho e só com o uso contínuo é que a droga afetaria sua capacidade de trabalhar. Ele narra de forma poética suas experiências com essas drogas, tudo de forma a deixar o leitor absorto, como envolto em fumaça de ópio. 

 "Ele prefere a solidão e o silêncio, como condição indispensável para seus êxtases e devaneios profundos." 
Um comedor de ópio. 
O que eu aprecio na escrita de Baudelaire é a sua melancolia exacerbada, como se respirasse poesia pelos poros, e a sensação que me dá ao ler um poema seu é de como se eu estivesse inebriada e luxuriosa, entorpecida, lânguida... 

"Profundas alegrias do vinho, quem não vos conheceu? Todo homem que tenha tido que amenizar um arrependimento, evocar uma lembrança, afogar uma tristeza, construir um castelo de vento, todos enfim vos invocaram, deusas misteriosas escondidas nas fibras da videira. Como são grandes os espetáculos do vinho, iluminados pelo sol interior! Como é verdadeira e ardente, esta segunda juventude que o homem nele encontra! Mas quão temíveis também suas volúpias fulgurantes e seus encantos exasperantes..." O poema do Haxixe. 
'Baudelaires' pra chamar de meus...


Deixo com vocês um dos meus poemas preferidos de As flores do mal...

"Soturnos funerais
deslizam tristemente
Em minh'alma sombria.
A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando;
e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão
sobre os meus ombros lança!"
As flores do Mal 


4 Comentários:

Ítalo Costa Says:
11 abril, 2014

Val, eu sempre olho para os As Flores do Mal na biblioteca com uma vontade de levar para casa, mas depois desse teu post eu QUERO ler. Que vida angustiante ele passou...

Cassidy Valcorte Says:
11 abril, 2014

Triste e lindo ao mesmo tempo, o trecho do livro que você citou...

Realmente espero lê-lo com afinco!

=3

Italo S Says:
14 abril, 2014

Oiii, Val, como vai?
Menina, eu só li dele uma biografia hihi na verdade, Sobre ele* haha
e faz tempinho já tb.

http://incriativos.blogspot.com.br/

Kris Monneska Says:
14 abril, 2014

Bem o tipo de poesia que eu gosto, melancólica e mórbida, infelizmente ainda não tive o prazer de lê-lo, mas lerei com certeza.
Conversas de Alcova

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