Junky e Centenário do 'Old Bull Lee' de On the Road...

| 05 fevereiro 2014 | |

Hoje seria o aniversário do escritor beat William S. Burroughs, nascido em St. Louis, nos EUA. Mudou-se para Nova York e conheceu Jack Kerouac e Allen Ginsberg, tendo iniciado sua carreira na literatura na década de 1940. Chegou a ser preso por traficar narcóticos, bem como por utilizar drogas pesadas. Em 1951, matou sua esposa por acidente, com uma arma de fogo. A partir desse fato, Burroughs falou que esse fator fez com que ele engrenasse na carreira de escritor. Além de Junky, outros trabalhos notáveis são Almoço nu, O gato por dentro e Cartas do Yage. Era amigo de artistas famosos, como Andy Warhol e Patti Smith. Faleceu em 1997, na cidade de Lawrence, Kansas. Uma particularidade sua é que era apaixonado por gatos.



Para comemorar seu centenário, nada melhor que resenhar uma obra sua. Junky é o segundo livro que leio dele. Sua publicação original data de 1953, depois de ter vários trechos excluídos, e fala sobre a experiência de Burroughs com as drogas. De usuário passou a traficante de morfina. No decorrer da leitura, o autor explica até como os junkies conseguiam receitas médicas para adquirir morfina. Se um local já não tinha mais como fornecer a droga, eles rumavam para outro.  

A narrativa se dá em primeira pessoa, e por vezes, é como se Burroughs falasse com você. Ele relata de maneira incisiva sua jornada em busca da droga, retrata sua infância e relações com a família, com seu 'ao redor' e de como conheceu o vício. Nascido em 1914, conheceu o junk durante a guerra, em meados de 1944 ou 45. Sua busca incansável por seringas a fim de preparar as doses e vendê-las lhe rendia situações arriscadas, em que por muitas vezes acabava sendo pego pela polícia. Outro ponto interessante no livro é quando ele fala que tentava se desvencilhar do junk e se utilizava de drogas mais leves ou comprimidos a fim de encerrar o vício. Passado algum tempo 'limpo', logo voltava a se picar. 

Os relatos sobre o meio junkie são bem crus e intensos. Sexo, drogas, propinas, a sujeira das ruas e dos médicos que vendiam às escondidas as receitas médicas, os períodos de abstinência em clínicas de reabilitação, todos esses fatores são tão bem detalhados por Burroughs que você se imagina vivenciando tudo isso. A leitura é fluída, agradável, embora tenha temática tão pesada. Ele fala sobre seus fregueses, cada qual com características distintas, sobre os 'caguetes', que fingiam comprar para consumir a droga mas na verdade, o deduravam para  a polícia. Havia a dificuldade de conseguir passar as receitas nas farmácias, que não queriam aviá-las pois sabiam que o suposto cliente era na verdade um viciado ou traficante.

Vários termos até então desconhecidos por mim me foram apresentados: o próprio termo que dá nome ao livro, junky,  fissura, nomes de drogas menos conhecidas e substâncias igualmente viciantes, bem como as 'manhas' para se conseguir a droga nas ruas e as maneiras de se injetar. O livro acaba cumprindo um papel de 'guia', embora de forma involuntária, beirando o aliciamento. [mas não vou me drogar por ter lido, ok? rs]. Mas de algum maneira, temos um paradoxo: Burroughs afirma que a droga não seria uma forma de prazer, e sim um meio de vida. Minha interpretação é de que é algo que não se faz para melhorar de vida, e sim para suportá-la. 

Um dos trechos que mais me chamaram a atenção foi quando ele falou sobre as tentativas de largar a droga. Que por mais que você tente, sempre arranja um motivo de voltar a se picar.

"Quatro dias depois eu estava em Cincinnati, eu estava sem junk e sem força para sair do lugar. Nunca soube de nenhuma cura autoadministrada que funcionasse. Você sempre acha motivo pra um pico extra, o que requer cada vez mais junk. No fim, o junk acaba antes do previsto e você ainda está dependente." 

No final do livro, Burroughs quer partir rumo ao desconhecido, e se abre a novas perspectivas de experimentação. Dá um leve prelúdio do que almeja, o Yage, outra droga que ele ouviu falar e que existe na Amazônia. Mas isso é tema para outro livro [que será minha próxima leitura do 'Old Bull Lee' - leitores de On the Road entenderão...], e quem sabe, para uma próxima resenha...  

Não poderia deixar de falar que essa edição da Ed. Má Companhia é linda. A introdução é de Allen Ginsberg [outro escritor beat] e traz uma seringa bastante sugestiva. Apesar do verde gritante, é uma edição bem bonita pra se ter na estante... 



7 Comentários:

Michelle Henriques Says:
06 fevereiro, 2014

Que texto incrível, Val.
Esse é um dos livros que mais gosto da geração beat. Li na época da faculdade e ainda lembro bem de vários trechos.
Preciso de uma edição para ter na estante!
Beijos

Maura C. Parvatis Says:
06 fevereiro, 2014

Adorei a resenha, Val!
Acho que já comentei que quero ler - consegui o e-book dessa edição e estou 'ensaiando' para ler, quero ler esse livro ainda esse ano, e comprar nessa edição que é lindona!
Eu nunca li nada do Burroughs, só assisti ao filme "Mistérios e Paixões" mas não li o livro que deu origem, e é claro que quero ler Almoço Nu esse ano também xD

Beijos!!!

HONORATO, Sandro Says:
06 fevereiro, 2014

Boa tarde :)
Como vai?
Pra ser sincero eu não conhecia este autor :(
Mas achei bacana a sua resenha *--*

Beijos e se cuida
Obrigado pela visita :)
Rimas Do Preto

Italo S Says:
06 fevereiro, 2014

Olá, Valéria, como vai?
Menina, esse livro minha cunhada -irmã do Vic- ganhou do namorado dela hihi
acho essa capa linda, óh, sério.
E, quero ler logo -e ela vai emprestar-me hihi
Assim que ler, te digo hihi
Saudades de ti, mulher <3

http://incriativos.blogspot.com.br/

Suelene Simplício Says:
09 fevereiro, 2014

Adorei Valéria, estou com muita vontade de ler esse desde que vi a primeira vez com você, achei a capa linda também, vou com certeza comprar, tô ansiosa pra ler esse livro, ainda demais depois desse teu post! Muito massaaaa <3

Michelle Says:
12 fevereiro, 2014

Oi!
Do Burroughs eu li esse dos gatos (porque é impossível não amar os bichanos) e 'Almoço Nu" (e sofri com a escrita em estilo viagem psicotrópica). "Junky" parece ser mais direto que "Almoço Nu", então acho que eu gostaria mais.
Aliás, no mês passado li "A Arte de Produzir Efeito Sem Causa", do Mutarelli. Você já leu? A história é cheia de referências ao Burroughs. Se não leu, recomendo ;)
bjo

Aline Gonçalves Says:
13 fevereiro, 2014

Oie, tudo bom?
Acho essa capa de Junky tão impactante, mas acho que eu não curtiria o livro. Não gosto de livros que joguem essas coisas na sua cara, por mais que sejam verdades.
Não conhecia o autor, mas vou pesquisar melhor.
Beijos!
http://livrosyviagens.blogspot.com.br/

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