26 agosto 2016

E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques...

"Comecei a pensar sobre quando eu ficava imaginando como seria matar alguém e eu escrevia milhares de palavras para criar esse tipo de emoção. Agora ali estava Phillip ao meu lado, e ele de fato tinha feito aquilo."

É estranho, diria até que ninguém poderia imaginar que provavelmente o incêndio  de um circo no momento que esta obra era escrita, foi noticiado num rádio e seria responsável por dar nome a esta obra - uma ficção americana escrita a quatro mãos por William Burroughs e Jack Kerouac, baseados num caso real de homicídio ocorrido na década de 1940. E mais absurdo ainda: crime cometido por um amigo de ambos os escritores beats...


E os hipopótamos foram cozidos em seus tanques foi escrito antes do sucesso estrondoso de On the Road. Publicado pela Editora Companhia das Letras, trata-se de uma história narrada com intercalação de capítulos - ora por Kerouac, ora por Burroughs - dando ao leitor suas versões sobre o assassinato de David Kammerer por Lucien Carr, em 1944, em que o próprio Jack foi preso por não ter entregue o amigo à polícia assim que soube do crime, ao contrário de Will que aconselhou a Lucien de se entregar à polícia, tão logo soube do ocorrido...

Com uma narrativa ágil e de capítulos curtos, ambos os escritores tecem um panorama real com ares ficcionais, emprestando suas personalidades aos personagens Dennison [barman encarnado por Burroughs] e Mike Ryko [Kerouac como marinheiro]. O mundo em que viviam, infestado de bebidas, drogas, viciados, prostituição, gays e desempregados, verdadeiras almas desoladas na imensidão da metrópole novaiorquina, formam o corpo da obra, entremeando-se ao enredo que passou décadas sem ser publicado, devido a uma promessa feita por James W. Grauerholz de só publicar a história depois que Lucien Carr tivesse morrido. E em 2008 parte do espólio de ambos os autores foi trazido à tona aos leitores [beats]...

"Todos eles se foram agora: Dave, Jack, Allen, Bill - e Lucien também, há dois anos, em 2005... de modo que aqui estão os Hipopótamos,finalmente prontos para ser cozidos." 
É interessante ler a obra que traz uma escrita sem arremedos de fluxo de consciência, tão habituais nos livros dos autores, e que revelam traços de amizade, sexo e drogas com pitadas de poesia. É uma prosa que prende o leitor até suas páginas finais, com a maestria que só dois mitos da literatura subversiva americana poderiam nos trazer; símbolos de uma geração considerada perdida, mas que imortalizaram toda uma era... 

25 agosto 2016

Lilian Farias na Bienal do Livro SP 2016

Olha que notícia maravilhosa. Com o boom do livro Mulheres que não sabem chorar, recentemente lançado pela Giz Editorial, a querida parceira Lilian Farias estará presente no evento autografando e você pode bater um papo legal com ela, além de poder adquirir sua edição do Mulheres, que está com roupa nova, revisado e promete arrancar lágrimas de emoção em quem ler... 

Não perca a chance de estar no evento e prestigiar a obra e autora... Para acompanhar o trabalho de Lilian, você pode curtir sua fanpage no facebook e demais redes sociais... 


24 agosto 2016

O Clic 2 - Manara está de volta...

Neste segundo volume de O Clic, Claudia se vê em apuros mais uma vez por causa da máquina do sexo. Depois do desfecho na edição anterior, ela está trabalhando como jornalista num programa de TV, apadrinhada por um tio, pois o escândalo que ocorreu anteriormente fechou muitas portas para a burguesa. E alguém que vê seu programa na televisão parece estar disposto a desenterrar o passado da jornalista... 

Um homem chamado Faust aparece no trabalho de Claudia mostrando estar em posse do aparelho sexual que tanto lhe custou a imagem no passado. Claudia acaba se submetendo a algumas humilhações a fim de recuperar o aparelho, mas seu possuidor não parece estar interessado em devolver o brinquedo tão apressadamente...


Logo aquelo jogo perverso deixa a mulher em clima de alerta no trabalho, e tentam afastá-la antes que o escândalo aumente, mas a situação já se tornou pública, inclusive ao seu tio, que resolve castigar a sobrinha indecente na frente de seu patrão... Não preciso dizer que confusão isso vai dar, não é mesmo? Só lendo para descobrir e dar boas risadas...

Mais uma aventura de Claudia e o aparelho transmissor que faz clic e a deixa insaciável é narrada através de desenhos belíssimos nessa continuação da série O Clic. Por mais que ela tente fugir, o aparelho pode ativar o chip em seu cérebro se colocado próximo a TV, durante a exibição de seu programa... 

Está cada vez mais difícil se safar do possuidor do aparelho... Ela vai ceder aos seus caprichos e implorar pelo que ele tem a oferecer, a fim de recuperar o transmissor? 


Mais uma divertidíssima HQ do mestre dos quadrinhos eróticos italianos, Milo Manara. Apesar de ser a continuação, você pode ler a história desta edição sem ter lido a anterior, embora seja melhor iniciar pela número 01... Mais uma vez vale ressaltar o talento do artista com seu traço bem característico, e que é necessário ter mais de 18 anos para apreciar a obra... 

Para leitores conservadores, acredito que a leitura não vá agradar. O Clic é para leitores ousados, que não temem o que vão encontrar de bizarro em suas páginas... A crítica à liberdade sexual feminina é válida e mais uma vez se faz presente na narrativa, embora de maneira mais sutil que sua antecessora... 

Em suma, se você gosta do gênero, não há porque torcer a cara pra esse tipo de publicação. Recomendo, sem dúvidas... 

23 agosto 2016

a Poética de Ana Cristina Cesar...

Sempre me deleito ao revisitar a obra de poetas que admiro, e com Ana Cristina Cesar - ou Ana C. - não seria diferente... A Editora Companhia das Letras trouxe aos seus leitores uma obra que se trata de um compilado de sua obra marginal. E é esse livro que tenho agora em mãos, e com grande deleite trago as impressões dele a vocês, leitores do blog...

Armando Freitas Filho, também poeta e amigo de Ana C. nos fala na apresentação sobre os paradoxos que permeiam os versos da autora. Ela traz pudor e ousadia numa mesma frase, é singular e anônima, é escrita que interpela a si mesma e a quem a lê. 

"Preciso voltar e olhar de novo aqueles dois quartos vazios."

Cenas de Abril foi publicado em 1979 e é a primeira obra que Poética nos apresenta. Há textos em verso e textos em prosa, mas ambos os tipos nos revelam a genialidade marginal e despretensiosa de Ana na construção de seus devaneios... Ela se permite encaixar no leitor e nós nos encaixamos nas palavras dela... Correspondência Completa também é de 1979; é um texto denso e com toques de melancolia. 

Luvas de Pelica foi publicado no ano seguinte... A poética entremeada em uma conversa íntima com o leitor se faz presente e suntuosa, mas ao mesmo tempo nos parece jogada ao acaso, num despropósito... A teus pés tem uma linguagem simbólica, onde o subjetivo permeia por entre os versos... 

"Não é automatismo. Juro. É jazz do coração."

Em Inéditos e Dispersos a voracidade de Ana transpõe a poesia. Antigos e soltos é uma reunião de material publicado após a sua morte, considerados rejeitados e que foram organizados por Viviana Bosi. Graças a ela temos acesso a esses poemas que há muito perdidos em poeira de baús, nos vem à tona mais de 30 anos depois de escritos... 

"A biblioteca não é moderna. Na estante velha não tem romances incertos, só certos. Bolor. Calor. Lombo, lombada, lambida, relida. Eu quero aquele livro que dá tesão, não?"

Ao longo do livro temos algumas imagens de rascunhos de Ana C., bem como alguns de seus desenhos... Há uma cronologia de sua vida e um apêndice com várias informações na perspectiva de pessoas próximas sobre as inspirações da autora, como os beats e Walt Whitman, e a obra de Emily Dickinson, que serviram de base para a sua própria. 


Ana Cristina desconcerta, quebra paradigmas e reconstrói uma literatura que a deixou em evidência entre os poetas da Geração Mimeógrafo... Ela une elementos como o lirismo carregado de nostalgia, a metafísica e certa afetação personificando indivíduos reais ou [re]inventados, que se revelam aos olhos do leitor, que figura no papel de voyeur ao invadir a intimidade minimalista de seus escritos... 

Sua morte abrupta [ela se suicidou em outubro de 1983], fez com que tudo relacionado a ela ficasse em suspenso, como se no momento de seu pulo na janela, flutuasse sem encontrar o fim da queda. Marcando a geração dos anos 1970, eu ousaria abusar de certa dicotomia ao definir sua personalidade e escrita: elegante e suja. Decadente e glamourosa. Pudica e visceral. A marginal Ana é - convenhamos - figura única da literatura brasileira... Ela foi tudo, menos ordinária e intransitiva... 

Parafraseando a própria, diria que sua obra fecundou os campos de melancolia...