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"Deixai toda esperança, ó vós que entrais!" Inferno. A divina Comédia [Dante Alighieri]

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Um dolorido relato de guerra - Irmãs em Auschwitz

"- Raus! Raus!"


Li recentemente a biografia de Rena Kornreich Gelissen, sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz-Birkenau durante a Segunda Guerra Mundial, que vitimou mais de seis milhões de judeus. Escrita por Heather Dune Macadam, que através de visitas a Rena gravou as conversas a fim de publicar o livro, Irmãs em Auschwitz é sobre Rena e Danka, sua irmã mais nova, a quem prometeu aos pais proteger. Rena não fazia ideia do horror que ela e sua família, bem como os amigos, seriam submetidos...



Trata-se de um relato comovente, narrando os primeiros anos de Rena até o momento em que a Polônia é invadida pelos soldados alemães. Teve que fugir para a casa de parentes na Eslováquia mas posteriormente voltou para junto de sua familia, pois não queria deixá-los sozinhos e desprotegidos... Pouco adiantou essa decisão...

Ao longo dos capítulos, vamos acompanhando toda a trajetória de Rena tentando sobreviver aos trabalhos forçados, as humilhações, fome, doenças, piolhos, espancamentos e o medo constante de no dia seguinte ser 'selecionada' para as câmaras de gás... Além de si mesma, precisa livrar a caçula do encontro com a morte... Ela não tem mais noticias dos seus pais, nem de suas irmãs mais velhas, sobrinhos...  Pessoas que a ajudaram acabam morrendo. A cada dia fica mais difícil acreditar que aquele sofrimento vai ter fim...

Alguns trechos são por demais chocantes e nos levam a refletir sobre quanto o ódio pode levar um indivíduo a cometer atrocidades com o outro. Rena foi uma das primeiras mulheres a ser transportada em massa para os campos de concentração, quando ainda julgavam ser campos para trabalhos forçados... Ela passou mais de 3 anos lutando por sua vida e pela de Danka, tentando ser resilientes em suportar os horrores por dentro das cercas eletrificadas... 

O que emociona ainda mais o leitor é saber que a convivência com os demais judeus, em sua maioria mulheres, era de empatia e ajuda mútua, na medida do possível... A comida que era surrupiada era dividida para todos, os bilhetes escondidos que muitos se arriscavam em entregar de um para o outro, entre outros fatores permitiu que Rena praticasse o bem em meio a tanto mal perpetrado pelos soldados nazistas...

A Editora Universo dos Livros fez um excelente trabalho publicando essa obra pungente, um relato emocionante e dolorido-sombrio, de um dos episódios mais infames de nossa história... Impossível se manter alheio às emoções que a leitura desse livro nos proporciona... O desconforto é quase palpável, e por mais histórias que eu leia desses sobreviventes e por mais que eu imagine como foi, nada será tão angustiante como realmente ter estado lá, vivido e sobrevivido ao Holocausto judeu...

" - Você sabe para que temos de rezar, Rena? - A voz de Erna retalha meus pensamentos.
- O quê?
Uma coluna de fumaça sobe das chaminés.
- Não para que não cheguemos lá, mas para que quando, de fato, acabarmos lá, eles tenham gás suficiente para morrermos e não precisarmos ir para os fornos vivas."




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Menina Má, de William March

olá, leitores! Trago para vocês mais uma resenha de um título que adquiri recentemente na Amazon, publicado pela DarkSide Books. Trata-se do livro Menina Má, escrito em 1954 por William March. A história fala sobre Rhoda Penmark, uma menina aparentemente dócil e educada que se mudou há pouco tempo para uma pequena cidade, mas o pai vive viajando devido ao seu trabalho. Christine vai tentar uma vaga numa escola renomada para sua filha, mas logo percebe que algumas coisas incomuns e uma atmosfera hostil envolvem o circulo social de sua filha...

As pessoas parecem evitar a pequena Rhoda. Desde muito cedo seus pais perceberam que ela era diferente de outras crianças, meio apática até, não demonstrando afeto e amorosidade, a não ser em alguns momentos demasiadamente calculados... Rhoda é também uma criança ambiciosa e por vezes egoísta, e esse comportamento frio e racional para uma menina de 8 anos acaba causando estranheza e certa aversão por parte das pessoas do local onde moram, exceto uma ou outra pessoa, que se encanta com seu jeito polido.


 Numa competição da escola - devido ao seu comportamento - ela pensava que iria ganhar uma medalha de reconhecimento mas esta acaba indo para um menininho. Porém, Rhoda não aceita esse resultado e deseja a medalha para si. Num piquenique realizado pelas professoras da escola, um acidente acontece e a menina parece esconder algo importante... Após o ocorrido, sua mãe começa a descobrir mentiras contadas pela filha, evasivas na hora de investigar o caso e percebe que pode ter em casa um problema muito maior do que o comum...

A temática abordada pelo autor no período em que escreveu o livro rendeu inúmeras críticas sobre o comportamento sócio/psicopata infantil. Há uma perfeita construção dos personagens que compõem o enredo, tornando a história muito crua e repleta de detalhismos, que em momento algum se revelam enfadonhos ao leitor... Apesar de ser a protagonista da história, conhecemos a obra até seu desfecho por meio da visão da mãe, Christine. Ela descobre não apenas a maneira sórdida em que sua filha lida com pessoas que 'cruzam' seu caminho, dificultando seus objetivos, mas também coisas referentes a seu passado, que podem servir de explicação para o comportamento de Rhoda. A fragilidade de Christine ao ter que lidar com esse segredo sozinha, pois o seu marido se encontra ausente, é o que mais deixa o leitor compadecido de seu dilema moral. 

A frieza e calculismo diante de insinuações, ameaças e afins por parte de Leroy - zelador inescrupuloso do prédio em que vive - toma proporções perversas. Christine liga pontos do passado da filha em outros locais onde moravam, a atitude de pessoas depois de alguns acidentes e percebe que o caso do menino Claude não é o princípio de tudo... 

Com relação às decisões que Christine toma no decorrer da trama a fim de resolver a questão podem irritar algum leitor mais racional, mas convém lembrar que se trata de uma mãe lidando com uma criança capaz de ferir pessoas, até o mais alto grau, uma menina de especificamente oito anos de idade... No lugar dela, qualquer um se encontraria perdido, sem saber como agir...

A editora Darkside fez um trabalho primoroso com a edição. Há uma adaptação que ainda não tive a oportunidade de assistir, mas em breve verei... No Brasil, ela recebeu o titulo de Tara maldita, ao invés de A semente do mal, título original do livro... Esse filme data de 1956, dois anos após a publicação da obra... Para aqueles aficionados por histórias com enredo enxuto, bem estruturado e com personagens bem caracterizados, Menina Má é uma excelente pedida, ainda mais se você aprecia estudos sobre psicopatia, crianças criminosas e afins...



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Quote: Amor líquido sobre a fragilidade dos laços humanos [Zygmunt Bauman]



“Será que os habitantes de nosso líquido mundo moderno... preocupados com uma coisa e falando de outra? Eles garantem que seu desejo, paixão, objetivo ou sonho é “relacionar-se”. Mas será que na verdade não estão preocupados principalmente em evitar que suas relações acabem congeladas e coaguladas? Estão mesmo procurando relacionamentos duradouros, como dizem, ou seu maior desejo é que eles sejam leves e frouxos, de tal modo que, como as riquezas de Richard Baxter, que “cairiam sobre os ombros como um manto leve”, possam “ser postos de lado a qualquer momento”? Afinal, que tipo de conselho eles querem de verdade: como estabelecer um relacionamento ou – só por precaução – como rompê-lo sem dor e com a consciência limpa? Não há uma resposta fácil a essa pergunta, embora ela precise ser respondida e vá continuar sendo feita, à medida que os habitantes do líquido mundo moderno seguirem sofrendo sob o peso esmagador da mais ambivalente entre as muitas tarefas com que se defrontam no dia-a-dia."


Resultado de imagem para despedida

[De “Amor Líquido Sobre a fragilidade dos laços humanos” Zygmunt Bauman]
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O banditismo/messianismo na obra de Natanael Sarmento

Mais uma cortesia recebida da Chiado Editora é sinal de resenha por aqui... O bandido que virou santo foi publicado em 2015, de autoria do escritor potiguar Natanael Sarmento. Nos primeiros anos do século XX, o progresso viria se estabelecer nas terras nordestinas, devido ao vapor da Great Western, a luz elétrica e ao telégrafo. A paisagem das cidades e dos campos, seria modificada. Nesse processo, tais modificações seriam a causa de êxodos rurais por parte de grandes proprietários de terras, indenizados por tais empresas. Diferentemente dos trabalhadores de tais locais, que sem um vintém, haveriam de encarar a expulsão com 'uma mão na frente e outra atrás', por não pertencerem à classe favorecida...

"O êxodo, despejo ou retirada melancólica dos que partiam sozinhos, ou em grupos, as míseras pertenças, as muitas dúvidas. Onde encontrar Terra para semear e colher? Sabiam que deviam partir, não podiam ficar, que deviam buscar outra freguesia. O Progresso chegava com a futura estrada de ferro, eles representavam o atraso, o passado, deviam partir."

Cascavel outrora foi José Presciliano, filho de seu Mestre Francisco, um dos homens que se viram de repente sem terra e sem lar devido à ambição de seu antigo empregador... Ameaçados, humilhados e expulsos, tiveram que enfrentar dificuldades para encontrar um novo recanto, mas por ironia do destino, sofreram os horrores diante da 'Lei'...

Querendo se vingar por tudo que aconteceu desde que deixaram sua terra natal, o garoto comete um crime, e perseguido pela Justiça, acaba encontrando o bando de cangaceiros de Tião Brilhantina. Depois de provar que era corajoso o bastante para não ser morto pelo grupo, acabou caindo nas graças do líder, e a partir daí seguiu por um caminho sem volta, na criminalidade do cangaço, enfrentando os homens da lei, os coronéis e o ódio crescente que habitava dentro de si, por toda injustiça que sofreu em vida...

"Assim a glória desse mundo: alguns manda, muitos obedecem. Abandonar tudo que construiu naqueles sítios, a última ordem do Coronel Abelardo. Ele mesmo determinou o valor da indenização,sem dar cabimento a reclamos."

O Folhetinista é nosso narrador, e através de sua novela traça um perfil da figura bandida/marginal/justiceira do Cangaceiro, bem como denuncia através do campo 'ficcional' os desmandos de uma sociedade corrompida, com uma  política suja, perpetrada por homens poderosos e de influência econômica que visam explorar o mais humilde e trabalhador. 

O bandido que virou santo faz referência a história do cangaço, do coronelismo, exploração da mão de obra rural  pelo latifundiário, ao messianismo presente no povo sertanejo, bem como ao imaginário popular que permeia na literatura de cordel sobre o papel do Homem do Cangaço para os pobres, uma espécie de Robin Hood do nordeste, que através da violência cometida contra os poderosos, há de fazer um pouco de justiça aos menos favorecidos, já que a 'lei' acoberta justamente aqueles que possuem dinheiro e poder. 

"Nos estudos, das formas arcaicas dos movimentos sociais, Eric Hobsbawn consagra a expressão banditismo social. Ela define o papel social do cangaceiro. Lendários fora da lei, não raro, admirados e cantados em prosa e verso. Não são insurgentes políticos, nem perseguidores  religiosos. Eles emergem e se desenvolvem no contexto social ruralista, atrasado e pobre, do capitalismo agrário."

Leitura de nível atemporal, que serve como ponte para entender certas passagens de nossa História ruralista, bem como as lutas pelos direitos proletários, o abuso de autoridades e a fé do povo nordestino, tão incrustada em nossa cultura - simbolizando alento diante das dificuldades diárias...



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