Uma história de Kafka em versão quadrinhos - Na colônia penal

| 23 novembro 2017 | 1 Comentários |
Na colônia penal em quadrinhos se trata de uma adaptação da novela de mesmo nome escrita por Franz Kafka em 1919. Publicado pelo selo da Companhia das Letras Quadrinhos na Cia - possui roteiro de Sylvain Ricard e é ricamente ilustrado por Maël, ambos franceses. 


O enredo é sobre um viajante que durante uma visita a uma colônia penal se depara com um método de sentença e execução através de uma máquina, que escreve no corpo do condenado a sua sentença, com agulhas lhe perfurando a carne até a sua morte depois de várias horas. Chocado com as descrições de funcionamento da máquina, o protagonista se vê ainda mais abismado com o entusiasmo com que o oficial fala sobre a máquina e a maneira de julgamento e punição do preso.

Possuidora de uma narrativa intensa, apesar de se tratar de um texto adaptado para quadrinhos, podemos perceber nele uma crítica cruel sobre a sociedade do sadismo, da falta de humanidade e regojizo no sofrimento alheio. Logo, o leitor se vê consternado com o preso que, na HQ, aparentemente não cometeu crime que levasse a esse tipo de condenação brutal. 


A Justiça entra em xeque em meio a narrativa. A que ponto o ser Humano é capaz de julgar e sentenciar um outro indivíduo a sofrimentos indizíveis pelo fato de se achar superior a moral e bons costumes? A convicção do oficial em se achar apto a prescrever o julgamento e fazer justiça beira a megalomania. 

O traço de Maël é bastante expressivo e em algumas sequências os diálogos são dispensáveis. O próprio desenho conduz o leitor pela história, deixando-nos perturbados perante a perfidez e frieza humana. Em dado momento, o oficial, buscando a aprovação do visitante da colônia chega a se lastimar pelo fato de não haver platéia para o que ele julga ser um verdadeiro espetáculo de entretenimento: o sofrimento até a morte do marginalizado. O personagem, inclusive, desconhece seu destino nefasto até o momento em que é posto na máquina e ele passa a compreender seu funcionamento. A "Justiça" não lhe deu chances de defesa, conhecimento de causa ou qualquer outro elemento que lhe dê oportunidade de dar a conhecer o seu lado na história.



Em suma, Na colônia penal de Franz Kafka é um verdadeiro mergulho na covardia e indiferença do Homem, e que levanta questionamentos acerca do filosófico, psicológico e social. Uma bela obra-prima, impactante e que certamente vai tirar o leitor de sua zona de conforto...

Memórias de o que já não será, de Aldyr Garcia Schlee...

| 21 novembro 2017 | 2 Comentários |
"Hoje, levo por todo o meu ser teu resplendor de primavera; e tremo se tua mão toca a fechadura e bendigo a  noite soluçante e escura em que floresceu em minha vida tua boca tão arteira."
Um inexcedível perfume.

Memórias de o que já não será é composto de quinze contos do autor Aldyr Garcia Schlee e mergulhamos em sua narrativa em histórias de acontecimentos que se perderam no tempo, memórias revolvidas de situações que foram e jã não são, cenários que se perdem e que se eternizam no imaginário. 


São histórias ambientadas na fronteira do Brasil com o Uruguai, onde o coloquialismo se faz presente, inserindo o leitor no universo dos amanheceres dos pampas. Minha experiência inicial com Aldyr se deu de maneira leve, como um suspiro...

O autor nasceu em Jaguarão e possui vários livros de contos publicados, além de um romance. Sua obra é publicada tanto em português como em espanhol. Ganhador de alguns prêmios literários, é jornalista com doutorado em Ciências Humanas. 

Memórias é uma obra-ícone de fronteira. Identidade cultural e relações fronteiriças são o ponto forte de sua narrativa. Aldyr é detentor de uma escrita arrojada e bucólica, que remete à memórias guardadas no inconsciente. Ler sua obra é resgatar pormenores esquecidos de infância, de tempos longínquos, que por vezes se confundem com o que foi vivido e com o que gostaria de se ter vivido...

"Ouviram o silêncio interminável de suas próprias vozes mudas gritando por ajuda, clamando por qualquer coisa que lhes permitisse passar adiante, viver outro dia, viver enfim como se vive nos sonhos acordados em que tudo só acontece como se quer e porque se quer que aconteça." 

Memórias de o que já não será é uma publicação da Editora Ardotempo, lançado em 2014. Amanhã, 22 de novembro - é o aniversário do autor...

Uma publicação compartilhada por Maria Valéria - TorporNiilista (@psychokillerstrange) em




Para educar crianças feministas - Um manifesto

| 20 novembro 2017 | 2 Comentários |
A resenha da vez é sobre o livro Para educar crianças feministas - Um manifesto, de autoria da aclamada Chimamanda Ngozi Adichie, nigeriana autora do best-seller Americanah e Hibisco Roxo, publicada pela Editora Companhia das Letras.

A obra na verdade, é um texto em formato de carta da própria Chimamanda para uma amiga que havia se tornado mãe de uma menina. O livro traz algumas lições simples de como se educar uma criança numa sociedade machista e misógina, a fim de emponderar as meninas e fazer com que os meninos cresçam respeitando as mulheres. 

Chimamanda coloca em pauta os papéis de gênero, dá exemplos de situações que aconteceram com ela e que poderiam ter sido diferentes, mostra que a mulher precisa acima de tudo amar o que faz a fim de dar exemplo aos seus filhos e que não se deve colocar a educação de uma criança como sendo algo exclusivo da mãe. O pai tem responsabilidade igual, e além do fato de não poder amamentar um bebê, todo o resto deve ser compartilhado, para que não pese a responsabilidade apenas na mulher da família.

É necessário que a mulher deixe de lado o condicionamento a que foi submetida desde a infância de que ela é a única a prover as necessidades dos filhos. Que o pai não tem que ser parabenizado por algo que deveria ser natural ele fazer: criar um filho. Cuidar dos filhos não é território materno, os pais precisam ter uma presença mais ativa na vida da criança. 

Não é porque se é menina que algo não pode ser feito por você. Não existem tarefas que só meninas devem executar. O casamento não é a única coisa que toda mulher almeja na vida. Algumas nem querem. E não tem nada de errado ou esquisito nisso. É importante estimular a criatividade da menina desde cedo para que ela escolha o que deve ser quando tornar-se adulta. 

O livro é uma leitura rápida e fluída, e pode ser lido por qualquer pessoa, jovem, adolescente, homem ou mulher. É interessante estar atento a algumas generalizações que a autora faz com relação a cultura, e questionar tais apontamentos colocados por ela ao longo da leitura. De qualquer forma, trata-se de um texto importante e que traz um debate que deve sempre estar em foco...



Negrinha

| 19 novembro 2017 | 0 Comentários |
A HQ Negrinha foi desenvolvida a partir do olhar de um francês com descendência de mãe brasileira chamado Jean-Christophe Camus, e ilustrada por Olivier Tallec, publicada pela Editora Desiderata.

Negrinha retrata os contrastes da cidade do Rio de Janeiro, do morro pobre ao apartamento em bairro de luxo, e da relação social-econômica entre negros e brancos. Nesse contexto, conhecemos a menina Maria de apenas 13 anos, filha de uma negra mas que - por possuir uma pele mais clara, não sofre entre suas colegas de escola o preconceito já tão naturalizado em ambientes 'de brancos' frequentados por negros. 

A mãe de Maria trabalha bastante para que nada falte a sua filha, e evita contato com suas origens. Mas um dia, ela precisa subir o morro do Cantagalo levando a menina, que descobre seus parentes, seus cotidianos e cultura. Sua mãe não faz por mal, mas em plenos anos 1950, é difícil assumir sua identidade perante uma sociedade recém saída da escravidão. 


A HQ retrata um amor adolescente, aspectos religiosos e culturais, a violência perpetrada contra os negros, através de personagens que desvelam bem o dia a dia carioca da época: o vendedor de amendoim, a dondoca rica de vida vazia e fútil, e até o famoso sambista Cartola, que faz uma pequena e significante participação na história...

Em tons de azul, amarelo e cinza, Negrinha é uma obra que põe o leitor em reflexão, e pode ser considerada atemporal, além de nos brindar com uma verdadeira viagem a metade do século XX. Conhecemos o cenário da ex-capital do Império há pouco transformada em República. A descoberta da protagonista sobre suas raízes, de maneira natural e crua, mas que possui um quê de poético em sua composição. É uma obra tocante e sensível, que cativa e nos faz sentir pertencentes ao universo de Maria. 


Como nasceu a alegria, por Rubem Alves

| 18 novembro 2017 | 6 Comentários |
Em algum momento eu já falei nesse blog o quanto a escrita de Rubem Alves me enternece. Conheci sua obra através de leituras voltadas para o público infantil mas que servem facilmente para deixar os adultos refletindo, e não poderia ser diferente no livro Como nasceu a alegria.

As pessoas, em sua maioria, costumam evitar determinados assuntos com crianças, a fim de lhes poupar dissabores tão cedo. Mas isso não significa que as crianças não sintam medos profundos, confusos e sem nexo. Os adultos acham que falar apenas no lado bom e feliz da vida resolve alguma coisa. Eu penso que não. 

Nas curtas estórias de Rubem Alves, a exemplo desse título, o autor dá símbolos para que os pequenos falem sobre seus medos. Discorram sobre eles, aprendam com eles para só assim conseguir enfrentá-los, ou em alguns casos, suportá-los quando inevitáveis. 

Uma flor com uma pétala cortada por um espinho. Crescendo num jardim onde só haviam flores perfeitas e intactas. Seguindo a ordem natural das coisas, a natureza conspira e trabalha para que nada desequilibre o ambiente. Os anjos e animais têm suas tarefas diárias a fim de manter a harmonia nos jardins. 


Flores vaidosas, cheias de si, sem cortes ou arranhões para lhes tirar a bela aparência. Todas acreditavam ser a mais perfeita entre as outras. A vaidade as impedia de ouvir a opinião de suas companheiras. Belas mas vazias. A flor de pétala cortada não se incomodava com sua pequena 'imperfeição.' Vivia feliz e alheia àquele detalhe, pois não lhe doía. Mas as outras flores passaram a vê-la de forma esquisita, ao ponto dela começar a se enxergar esquisita, à margem das demais. Sendo assim, a tristeza lhe invadiu e ela chorou. 

Suas lágrimas desencadearam uma sequência de acontecimentos envolvendo outros seres da natureza. A tristeza da flor chegou até Deus. E tudo foi surgindo a partir dali... As coisas iam se moldando e a florinha nunca pensou que todos se compadeceriam dela... E um belo e emocionante milagre aconteceu.

A alegria surgiu da tristeza, do choro, da superação. Da importância de se querer bem e de enxergar o quanto as pessoas que amamos nos amam também. É a elas que devemos ouvir, e não a um punhado de seres que não suportam nossa aceitação e felicidade. Deixar doer para saber florir... E deixar nosso perfume se espalhar pelo mundo, atraindo a alegria para perto da gente...


╬† Literatura no Mundo ╬†

╬† Autores ╬†

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