Cartas de amor de Fernando Pessoa

| 17 setembro 2017 | 2 Comentários |
"Quem me dera ter a certeza de tu teres saudades de mim a valer. Ao menos isso era uma consolação..."

Organizado por Walmir Ayala, Cartas de amor - Fernando Pessoa é um compilado de cartas escritas pelo poeta dirigidas à pessoa de Ophélia Queiroz, que ele conheceu no dia em que ela apresentou-se na firma onde Pessoa trabalhava como colaborador na redação de correspondência.


A jovem deve ter causado um impacto profundo no poeta, ativando sua veia poética-apaixonada e o resultado disso se vê nessa edição publicada pela Editora Nova Fronteira. Alternando o cotidiano com o mistério, Pessoa revelava-se a cada linha escrita como um homem enamorado, não só por Ophélia, mas pela arte em si de colocar nas cartas seus mais variados pensamentos e emoções...

"O que te aconteceu, amor, além de estarmos separados? Houve qualquer coisa pior que te acontecesse? Por que falas num tom tão desesperado do meu amor, como que duvidando dele, quando não tens para isso razão nenhuma?"

As cartas seguem em ordem cronológica datadas de 01 de março de 1920 até 09 de outubro de 1929. A obra ainda possui uma cronologia do autor e um texto introdutório do organizador Walmir Ayala. Trata-se de uma leitura curta, rápida e que possui certa carga de romantismo e nostalgia. O leitor se sente familiarizado, como se se encontrasse naquelas palavras, ou fosse o destinatário das correspondências... Em suma, Cartas de Amor é uma bela leitura de poucas horas eternizadas em cartas escritas ao longo de quase dez anos...

"Um beijo só durando todo o tempo que ainda o mundo tem que durar, do teu, sempre e muito teu

5.4.1920
Fernando (Nininho)"

[Série] Referências literárias em Quatro Estações em Havana

| | 4 Comentários |
Há algum tempo vinha com a ideia de falar sobre outros assuntos aqui no blog que não fossem necessariamente sobre livros, mas acho meio improvável não tentar assimilar meu amor pela literatura com qualquer temática que seja... Mas decidi expandir um pouco as coisas por aqui, abordando também sobre séries que tenham me agradado... E por que não fazer 'a ponte' com a literatura?


Recentemente assisti Quatro Estações em Havana [Cuatro estaciones en el Habana] por indicação de um querido amigo Trata-se de uma série original da Netflix que estreou ano passado, e só agora tomei conhecimento de sua existência... São apenas 4 capítulos em uma temporada. Os capítulos são baseados na Tetralogia escrita pelo autor cubano Leonardo Padura

Estrelado por Jorge Perugorría, é ambientada numa Cuba do fim dos anos 1980 e traz todo o clima de suspense noir sessentista que permeia a literatura e cinema. A própria Havana ganha ares de personagem, com uma trilha sonora incrível, fotografia belíssima e enredo bem trabalhado, com atuações simples porém cativantes... Jorge vive o personagem Mario Conde, um policial cinquentão que vive desiludido com a vida, ama jazz e mulheres e possui um espírito sarcástico e inquiridor, além de ser aspirante a escritor. 


O primeiro episódio se passa na Primavera e Conde precisa investigar o assassinato de uma professora, estrangulada em seu apartamento. Drogas e tráfico dominam o cenário e em meio a isso ele conhece Karina, uma misteriosa ruiva que toca saxofone e parece virar a cabeça do tenente pelo avesso... O segundo episódio é sobre o desaparecimento de uma figura importante do Ministério da Indústria. Alguém do passado de Conde ressurge, atordoando os sentidos e tornando a investigação mais delicada... 


Na terceira parte da temporada, um jovem travesti é assassinado num parque, e por ele ser filho de um diplomata cubano, há urgência em solucionar o caso... O episódio que fecha a temporada nos traz um assassinato que tem relações com o passado e a Revolução no país...


É possível conhecer um pouco do ambiente da ilha através do cenário e atuações, bem como a cultura cubana e seus problemas sociais. Corrupção, desigualdades, política e afins se mesclam num ambiente que esbanja sexualidade aflorada através dos personagens ali retratados, em meio a fumaça e neblina, miséria, violência e bolero. E um ponto interessante a ser levado em conta  são as referências literárias encontradas ao longo da trama. 

Consegui encontrar referências aos autores J. D. Salinger, que escreveu O apanhador no campo de centeio, Virgílio Piñera, Ernest Hemingway, Yukio Mishima, Stephan Zweig, George Calverte e Cesare Pavese. Exceto Salinger, os demais são escritores/poetas que possuem em comum o fato de terem se suicidado. Essa coincidência tem importante papel no terceiro episódio...

Aproveitando  referências literárias que encontrei ao longo da série, resolvi procurar obras de tais autores a fim de conhecer sua escrita. Hemingway, Salinger e Mishima eu já conheço, quanto aos outros, nunca li nada deles, mas pretendo mudar isso... 



A série não é composta por uma trama mirabolante, mas faz jus ao papel de entreter os aficionados pelo gênero policial/suspense/noir. A atmosfera do ambiente transporta o espectador para os becos escuros e prédios decadentes da capital cubana, ao som de jazz e fumaça de charutos aliados às cenas de sexo do protagonista com suas amantes, e também de seu amigo e parceiro Manolo, com sua esposa Vilma... Mario Conde personifica o anti-herói de meia idade, latino e charmoso, eficiente à sua maneira para desvendar os casos que lhe caem à mesa... Recomendo dispender umas poucas horas de seu dia para apreciar as [des]venturas de Mario Conde pelas ruas de Havana...


Sonetos, de Bocage

| 15 setembro 2017 | 6 Comentários |
Considerado o maior poeta português do século XVIII, Manuel Maria Barbosa du Bocage nasceu em 15 de setembro de 1765, na cidade de Setúbal. Serviu a armada lusitana, foi preso pela Inquisição devido a publicação da obra Pavorosa ilusão da Eternidade, considerada blasfema pela Igreja Católica, e só foi solto porque sua reputação como poeta lhe rendia prestígio na sociedade. 


Muito de sua obra foi publicada postumamente, mas em vida publicou Os idílios marítimos, no ano de 1791 e a trilogia Rimas, de 1971 a 1804. Seus poemas são considerados eróticos com sátiras à igreja, sendo uma figura legendária na poesia obscena e sacrílega. Pertence ao movimento chamado de Segunda Arcádia portuguesa, mas sua ousadia nos versos o faz transcender as convenções do movimento; considerado também um dos precursores do Romantismo.

Ao lado de nomes como Antero de Quental e Luis de Camões, Bocage é um dos grandes representantes da poesia lusitana. Possui sonetos em sua maioria autobiográficos, trazendo o paradoxo entre a elevação moral que desejava e os prazeres mundanos a que sucumbia...

"Razão, de que me serve o teu socorro?
Mandas-me não amar, eu ardo, eu amo;
Dize-mes que sossegue, eu peno, eu morro."

Sonetos é uma publicação da Biblioteca Folha e há alguns anos entrei em contato com os versos de Bocage através dela. Traz um apêndice, notas explicativas e um texto de apresentação sobre a vida do poeta. Os sonetos possuem uma carga de bucolismo e erotismo refinados. Certos tons sombrios e melancólicos podem ser identificados ao longo de toda a obra...

Em suma, Sonetos de Bocage é imprescindível para quem almeja conhecer sua poesia e expressividade. Um libertino incompreendido, ousado para seu tempo e de muitos amores. Enamorado pelas letras, mulheres e de espírito aventureiro...



Valsa nº 6

| 14 setembro 2017 | 7 Comentários |
Enquanto executava ao piano a Valsa nº 6 de Chopin, Sônia, uma jovem de 15 anos é assassinada misteriosamente. Na condição de morta, seus monólogos mesclados a diálogos imaginários tentam remontar o que antecedeu seu último suspiro. A garota revela uma verdadeira trama de assassinato, e alucinações que confundem o leitor entre o mundo real e o imaginário.


Publicado pela Editora Nova Fronteira, essa peça de Nelson Rodrigues foi escrita em 1951 e divide-se em apenas dois atos. No primeiro deles, nos deparamos com uma personagem que está sozinha, morta e que ao reviver os momentos de sua vida, acaba por personificar as pessoas que viviam ao seu redor. Sônia não possui mais identidade, sua memória tenta reconstituir isso...

"Noiva, eu?
(interpela a platéia)
Mas de quem?
(dolorosa)
Digam!
(interroga uma espectadora)
Eu tenho a face, as mãos, os olhos de uma noiva?
(ajeita os cabelos)
Há uma grinalda, em mim, que eu não vejo? Nos meus cabelos?"

Sônia não sabe quem ela é. Ela havia despertado para a vida, e a sua vida foi abreviada por alguém. Suas perguntas são obsessivas. O espectador/leitor acompanha a viagem do espírito atormentado de uma adolescente em busca de si mesma e de sua vida. e morte. 

A familia de Sônia vivia confortavelmente. A moça tocava piano, recebia visitas médicas em casa, tinha uma paixão por seu namorado. Mas sua aparência jovial e inocência tornam-se motivos para a tragédia se abater sob seu teto... 

Nelson Rodrigues consolidou o gênero modernista no Teatro brasileiro, usando de ironia fina para tecer críticas aos desvios sociais de comportamento. Ele mesclou o cru e o fantástico, valorizando a liberdade de encenação e a linguagem coloquial. Valsa nº 6 é um monólogo intenso, paradoxal e poético-perturbador...




Girassóis - Caio f.

| 12 setembro 2017 | 14 Comentários |


"E fui cuidar do que restava, que é sempre o que se deve fazer."
Girassóis é sobre uma flor que encanta com sua formosura, apesar de ter poucos dias de vida, e quando se abre para o sol, em todo seu esplendor, acaba retornando ao húmus da terra, a fim de se tornar pó novamente...

A partir daí, o novo ciclo se inicia, mas ninguém sabe ao certo de que maneira o girassol irá 'retornar'... Se como lírio ou azaleia, ou quem sabe rosa, as raízes abaixo do solo trazem o mistério da renovação... 
"Pois conheço poucas coisas mais esplêndidas, o adjetivo é esse, do que um girassol aberto."

Girassóis é uma obra singular de Caio Fernando Abreu, uma crônica que traz ao leitor uma metáfora interessante sobre a brevidade da vida, através do tempo 'útil' de um girassol... Ao descobrir-se soropositivo, Caio passou a aproveitar seus dias seguintes praticando jardinagem. Voltou à casa dos pais em Porto Alegre. Caio é o girassol, que apesar da pouca vida que lhe restava, resolveu vivê-la em toda sua plenitude, abrindo sua corola para o sol... Apesar dos caracóis, dos ventos e formigas, da chuva tempestuosa que teimava em derrubar seu caule, Caio-Girassol se volta ao sorriso de Buda, à tranquilidade de seu refúgio e ao mergulho de si mesmo...

O livro é classificado como infanto-juvenil, mas toca a criança que habita em cada um de nós. Nas entrelinhas entendemos sua despedida. Foi publicado pela Global Editora pouco tempo depois da morte do autor. E no dia em que faria aniversário, como uma espécie de renascer, Caio-girassol volta sua corola para o astro dourado...


╬† Literatura no Mundo ╬†

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